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Poema HeróI-CôMico
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A fábula cômica é constituída pelas peripécias de um grupo de estudantes guiados pelo professor Tibúrcio, personificação da Ignorância, expulsa de Coimbra pelo Marquês de Pombal, que restituíra a Verdade ao trono na velha instituição de ensino. Aristotelicamente fundada, a fábula é cômica, por definição, porque imita homens e ações piores, descreve matérias baixas e dignas de opróbrio. Assim, acumula tipos socialmente inferiores ou moralmente deformados, relata brigas comezinhas, com unhas e dentes, tumultos e bebedeiras, em lugar de triunfos da virtude. Quando "O desertor — poema herói-cômico" é lançado em 1774, Silva Alvarenga tinha 24 anos e era aluno da Universidade de Coimbra, recentemente reformada. Com efeito, o argumento heroico do poema é a Reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra, o que lhe dá sentido didático e elogioso. Por outro lado, a dissociação deliberada entre o assunto baixo e a elocução ornada com palavras graves dignas de grandes feitos é o que fundamenta o subtítulo do poema e o enquadra num gênero misto.
Manuel Inácio da Silva Alvarenga nasceu em Vila Rica, mas viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro, capital da Colônia e, a partir de 1808, sede da Corte Portuguesa. Diz-se que era pardo e de origem humilde, mas teria progredido nos estudos graças ao empenho do pai e de uma subscrição de amigos que teriam financiado sua ida ao Rio de Janeiro e depois a Coimbra, onde se tornaria amigo de Basílio da Gama, autor de "O Uraguai" (1769). Permaneceu em Portugal enquanto durou seu curso em Coimbra, entre 1773 e 1777. Voltando ao Rio de Janeiro, formado em Direito Canônico, torna-se advogado. De Dom Luís de Vasconcelos e Sousa, vice-rei e capitão-geral do Brasil, obteve uma cadeira de Retórica e Poética. Na amizade deste integra mais de uma agremiação literário-científica na capital da Colônia. Com a nomeação do Conde de Rezende, que proíbe essas associações, ganha sua inimizade. Provavelmente por fazer circular sátiras contra seu governo, é acusado de Inconfidência, perde os direitos civis e permanece preso por dois anos, mas é indultado por decreto de Dona Maria I, com o que readquire os direitos de súdito e aparentemente segue a carreira que já cursava, sempre na cidade do Rio de Janeiro. Morre em 1814, respeitado como advogado e dono de uma das maiores bibliotecas particulares do Rio de Janeiro, a qual, após a sua morte, foi comprada pelo então príncipe regente Dom João VI para a incorporá-la à Biblioteca Real, que mais tarde se tornaria a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
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