Em
Xamãs e Robôs
, o antropólogo
Roger Bartra
lança um olhar original sobre a consciência, questionando se a inteligência artificial será capaz, um dia, de adquiri-la. Para isso, Bartra articula saberes antropológicos, neurológicos e tecnológicos, com uma proposta ousada: a consciência humana é um fenômeno cultural, que não acontece apenas dentro do cérebro, mas fora dele, na rede simbólica que nos cerca (linguagem, gestos, artefatos, rituais). É o que ele chama de exocérebro, conceito central na sua obra, que desafia as concepções tradicionais de mente e subjetividade. Para Bartra, as máquinas precisarão de mais do que algoritmos e circuitos mecânicos para desenvolverem consciência: será necessário a construção de vínculos externos com um ambiente cultural e sensorial.
Partindo de uma abordagem antropológica que vê continuidades onde outros enxergam rupturas, Bartra constrói uma ponte inesperada entre práticas espirituais ancestrais e tecnologias de ponta. Como resume o professor e pesquisador Luli Radfahrer, na orelha do livro, xamãs e robôs “ocupam posições equivalentes como intermediários entre mundos, tradutores de realidades inacessíveis”, e o fascínio contemporâneo pela inteligência artificial não representa uma ruptura, mas “a continuidade de uma necessidade humana fundamental: a criação de mediadores para lidar com o incompreensível”.
Com clareza e sem concessões ao misticismo ou à tecnofilia, Xamãs e Robôs propõe que, do ritual ao cibernético, o que está em jogo é a tentativa de expandir os limites da consciência por meio de ferramentas externas. Trata-se de uma leitura essencial para quem intui que “as fronteiras entre natureza, cultura e tecnologia são muito mais permeáveis do que supomos”, como bem assinala Radfahrer.