Parou de ler? Como retomar o hábito de leitura sem culpa
Todo leitor passa por períodos de seca. A diferença está em como você volta. Estratégias testadas para sair do bloqueio literário e reencontrar o prazer de ler.
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René Girard deseja compreender como nossa capacidade de imitar — gestos, padrões, vontades — intensifica o caráter competitivo da vida, gerando rivalidades, conflitos e, por fim, a violência. Para ele, não desejamos algo por seu valor intrínseco, mas porque outros o fazem: imitamos, ainda que de maneira inconsciente, o desejo alheio, e essa inveja — ou “desejo mimético” — ergue-se como um dos fundamentos da condição humana. Dessa reflexão nasce o conceito do “mecanismo do bode expiatório”: a sociedade concentra sua agressividade em uma única vítima de modo a restabelecer a ordem, um ato sacrificial que dá origem a proibições, rituais e instituições destinadas a conter o caos. Em Teatro da inveja, um dos mais importantes críticos literários e culturais volta seu olhar para a figura central da literatura inglesa, William Shakespeare, e oferece uma leitura inovadora de quase toda a sua produção teatral. Ao aplicar suas intuições radicais à dramaturgia do Bardo, René Girard convida o leitor a revisitá-lo à luz da teoria mimética. Ao demonstrar como Shakespeare transforma a matéria bruta da tragédia em uma visão profética sobre a violência, Girard não se limita a aplicar sua teoria ao dramaturgo; mas demonstra que o próprio Shakespeare já pressentira a lógica mimética, registrando-a desde as primeiras peças. Tradução de Bernardo Santos.
René Girard (1923–2015) foi um dos mais originais e influentes pensadores do século xx. Nascido em Avignon, França, formou-se na École des Chartes antes de partir para os Estados Unidos, em 1947, onde concluiu o doutorado na Universidade de Indiana e iniciou uma carreira acadêmica que o levaria a instituições como Duke, Johns Hopkins e Stanford. O interesse pela literatura europeia o motivou a escrever seu primeiro livro, Mensonge romantique et vérité romanesque (1961), em que delineou a teoria do desejo mimético, segundo a qual nossos anseios são moldados pela imitação dos desejos alheios, mecanismo que também explica as rivalidades e conflitos humanos. Mais tarde, essa primeira intuição o conduziria ao estudo dos mitos e rituais de sacrifício, temas desenvolvidos em obras fundamentais como La Violence et le sacré (1972) e Des choses cachées depuis la fondation du monde (1978), sua síntese intelectual mais ousada. Eleito para a Académie Française em 2005, Girard permanece uma presença incontornável: sua obra atravessa, com rara unidade, os campos da filosofia, literatura, antropologia e estudos religiosos; suas ideias continuam a iluminar, com surpreendente vigor, a lógica dos conflitos, o tecido das sociedades e os labirintos do desejo humano.
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