Como ler clássicos da literatura sem sofrer
Clássicos intimidam. Linguagem difícil, contexto histórico distante, narrativa lenta. Mas há estratégias que tornam essa leitura não só suportável, mas prazerosa. Guia prático para iniciantes.
Nietzsche e o Perspectivismo
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*** Esta Sala de espelhos é a expressão do esforço dos seus autores para se aproximarem de um dos temas mais relevantes e densos da filosofia nietzschiana, o perpectivismo. Tal aproximação é dupla: trata-se tanto de analisar o perspectivismo na filosofia nietzschiana quanto de colocar o próprio Nietzsche (seus temas e os problemas emergentes de seu pensamento) em perspectiva. A metáfora do título, assim, traduz o resultado de uma investigação coletiva: modos diferentes de ver e de mostrar, nos quais se confundem imagens próprias e outras, constituídas nos reflexos dialogais, nas intersecções dos textos e, sobretudo, das trajetórias teóricas e acadêmicas de seus autores. Tal esforço não leva à verdade, mas faz ver reflexos que diluem todo subjectum, tanto em sentido objetivo quanto subjetivo, nos quais imagem e objeto se confundem, de forma que nenhuma verdade possa ser encontrada, apenas infinitas conexões e sempre novas perspectivas. Eis a vocação do livro, portanto: praticar uma experiência perspectiva mas, sobretudo, um modo de compreender o texto nietzschiano como sendo, ele mesmo, esse espaço de imagens refletidas. A palavra perspectivismo guarda um sentido etimológico que remete ao ato de atravessar com o olhar, ver através ou mesmo ver por dentro desde um determinado ponto ou situação, desde onde seleciona-se o visto que se dispõe ao olho para ser olhado desde tal posição. Ver, nesse caso, é sempre reconhecer um âmbito ou círculo de visão mais ou menos delimitado como campo de possibilidades. Trata-se de arranjar o que é visto e deixar de fora infinitas outras possibilidades e modos de ver, cuja legitimidade é inerente ao próprio ato de specere – olhar, afinal, é sempre delimitar um campo de visão sem negar o que o circunda, cuja manifestação depende das mudanças de posição no horizonte infinito de outras formas de enxergar (e compreender) o mundo. Se a visão fora, na tradição, o mais nobre dos sentidos, por sua associação à atividade racional que tudo quer ver (e iluminar), então com Nietzsche, tal esforço se distende em perspectivas infinitas, cujo sentido o presente livro resume na metáfora de uma sala de espelhos infinitos, por onde o olho entra em um mundo pleno de imagens, cuja vivacidade e encanto convocam para as múltiplas formas de interpretar. Nos reflexos dialogais e nas intersecções dos textos aqui reunidos, o/a leitor/a se verá convidado às diferentes perspectivas pelas quais o próprio texto de Nietzsche pode ser abordado. Mas sobretudo, ao fazê-lo, oxalá se experimente o modo próprio de fazer filosofia praticado e requisitado por Nietzsche, cujos textos são como imagens de mil faces desdobrando-se e oferecendo-se ao olhar de quem, admirando ao redor, vê o mundo como um espaço de imagens mutuamente refletidas. Sendo um diálogo, o livro traduz aquilo que Nietzsche chamou, em Humano, demasiado humano, 374, de “conversa perfeita”, na qual o interlocutor (que é também o leitor) torna-se “um espelho no qual desejamos ver nossos pensamentos refletidos do modo mais belo possível”. ***
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