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A poesia de François Villon não cessa de intrigar seus leitores desde que começou a circular, durante a breve e vertiginosa vida de seu autor, na Paris do século XV. Seus versos refinadíssimos são ao mesmo tempo dotados de imenso vigor vernacular, sem medo da gíria e do baixo calão. Neles, a sapiência antiga, adquirida na Sorbonne, mistura-se à vida dos estudantes no Quartier Latin ao redor, com toda a sua arruaça e toda a sua penúria. Em cada uma de suas baladas — forma poética em que Villon deixou marca indelével —, o giro nobre do ritmo não esconde, antes ressalta, a urgência das questões que dirige a seus leitores futuros: que sentido pode ter uma vida que o tempo há de tragar, qual o valor deste mundo que há de se desfazer como as neves do ano passado, e quem afinal sou eu, François Villon, que conheço tanta coisa, mas não conheço a mim mesmo? Essa peculiar síntese de contradições valeu ao poeta uma fama não apenas constante, mas crescente. Sua obra, agora reeditada em uma já clássica tradução para o português, faz jus à fama.
François de Montcorbier (ou des Loges) nasceu em Paris, em 1431. Órfão de pai, foi confiado pela mãe aos cuidados do cônego Guillaume de Villon, de quem adotaria o sobrenome. Contemporânea de grandes acontecimentos históricos (a morte de Joana d’Arc, a invenção da imprensa por Gutenberg, a Guerra dos Cem Anos ou a tomada de Constantinopla pelos turcos), sua biografia é parca de datas. Entre 1443 e 1452, frequentou a faculdade de Letras da Universidade de Paris, onde obteve os títulos de bacharel, licenciado e mestre — e onde, presumivelmente, começou a escrever poemas. A par dos estudos, entregou-se a fundo à vida boêmia e mesmo marginal: participou de distúrbios estudantis em 1452; matou um padre durante uma rixa de rua em 1455; participou de um furto vultoso em 1456; foi preso pelo menos duas vezes, e em outras duas ocasiões teve que se exilar de Paris. Condenado à morte em 1462, obteve em 1463 que a pena fosse comutada em banimento da capital — última ocasião em que se tem notícia de Villon. Suas duas grandes obras, O legado e O testamento, teriam sido compostas em 1456 e 1461, mas a primeira edição de seus poemas só se deu em 1489.
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