Ao procurar compreender os fenômenos que constituem as interações do homem em suas esferas de comunicação, Bakhtin voltou seu olhar enviezadamente às produções que surgem a partir desse contato entre duas consciências ou mais. Para ele o produto que advém dessa interação são textos encarnados em distintas materialidades e recheados de sentidos infinitos.
Em sua concepção são esses textos que arquitetam o objeto de compreensão das Ciências Humanas, com sua multiplicidade de sentidos e seus cruzamentos ideológicos. Esses frutos da interação em contextos particulares são produzidos e percebidos como um conjunto coeso e heterogêneo de signos e enunciados que evidenciam os aspectos axiológicos do homem, do seu meio e da sua cultura. Nessa perspectiva, o filósofo afirma que o que deve ser de interesse do pesquisador das humanidades é “a história do pensamento orientada para o pensamento, o sentido, o significado do outro, que se manifestam e se apresentam ao mundo somente em forma de texto. Quaisquer que sejam os objetivos de um estudo, o ponto de partida só pode ser o texto” (BAKHTIN, 2003, p. 340).
Destarte, nosso Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso, ao se propor, nesse pequeno livro, compreender o outro e suas singularidades, reconhece que só se pode fazer isso por meio de textos produzidos na esfera discursiva e que materializam posicionamentos no eixo axiológico da vida. Nessa perspectiva, cada autor parte de uma concepção teórico-dialógica a partir de alguns textos cotejados para auscultar a singularidade da palavra outra, compreendendo o diálogo como o lugar propício para se escutar a alteridade, o encontro de palavras, no qual ela não preexiste, mas pelo qual se realiza e vive em sua recíproca singularidade e unicidade.
Em cada texto aqui, pode-se perceber a premissa de que o diálogo não se configura como uma concessão do eu ao outro, posto que a alteridade se imponha de uma maneira tão forte, tão intensa, na constituição da identidade, que os sentidos se completam pelos vestígios de sua ação, uma vez que o outro existe e nos toca apesar de nós mesmos.