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Os sertões – marco fundamental nos estudos sobre a formação do imaginário nacional, ao lado de Casa-grande e senzala e Raízes do Brasil – foi escrito a partir de um trabalho jornalístico sobre a rebelião de Canudos, liderada por Antonio Conselheiro e duramente reprimida pelo governo. Baseada em teorias deterministas em voga na época, a obra aborda cientificamente a influência do meio sobre o homem, como mostra a própria estrutura dos capítulos: “A Terra”, “O Homem”, “A Luta”.Parte da riqueza do livro reside no fato de ele retratar a mudança de opinião do escritor que, movido por um espírito patriótico e republicano, via com maus olhos a revolta dos “fanáticos” defensores da monarquia, alinhado ao restante da elite letrada, que não tolerava a insurgência de um grupo, considerando-a uma ameaça ao projeto civilizatório do Brasil, do qual o ideal positivista de “ordem e progresso” era o lema. Dificilmente classificável, devido à mescla de jornalismo, literatura e estudo sociológico, o livro adianta temas-chave do Modernismo e tem como um de seus legados a incorporação do ponto de vista local – nesse caso, do Brasil profundo –, por meio de uma linguagem grandiosa e repleta de contrastes. “O sertanejo e´, antes de tudo, um forte” impôs um novo modo de se pensar o brasileiro, e tornou-se referência histórica incontornável para as discussões sobre identidade nacional a partir de então. Além do texto estabelecido por Walnice Nogueira Galvão, a edição conta com uma extensa fortuna crítica, as cadernetas de campo de Euclides da Cunha e um conjunto de imagens de Flávio de Barros, único registro fotográfico conhecido do conflito.
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em 20 de janeiro de 1866, na Fazenda Saudade, em Cantagalo, no interior fluminense. Fez seus estudos na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, formando-se engenheiro militar. No último ano, seria expulso da escola devido a um ato de insubordinação contra o regime monárquico. Passaria um período na capital paulista, acolhido pelo grupo republicano reunido em torno do jornal A Província (hoje O Estado de S. Paulo), no qual publicaria uma série de artigos. Vitoriosa a República em 1889, voltaria ao Rio e obteria seu diploma. É nesse jornal que estampa em 1897 “A nossa Vendeia”, dois artigos sobre a surpreendente derrota da 3ª Expedição na Guerra de Canudos. Logo depois, é designado pelo diretor do jornal, Júlio Mesquita, para cobrir a 4ª Expedição. A Guerra terminaria no dia 5 de outubro desse ano. A série de reportagens seria postumamente recolhida em livro, com o título de Diário de uma expedição. Constituiu, assim, o embrião de Os sertões, violento libelo contra a ação do Exército e denúncia do massacre dos canudenses que Euclides testemunhou, que ainda levaria cinco anos para ser publicado. A obra foi logo considerada de alto valor literário, rendendo a Euclides um assento na Academia Brasileira de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico. Morreu em 15 de agosto de 1909, em uma troca de tiros com o amante de sua esposa.
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