O texto que dá título a esta edição é um "fragmento de romance" publicado em 1840 e o ensejo imediato para a narrativa, que pretendia ser um romance histórico, foi a a intenção de Heine de contrapor-se à escalada de antissemitismo que se manifestava então na Alemanha. "O Rabi de Bacherach" é situado no final do século XV, mas o narrador remonta também a séculos anteriores para tocar nas raízes históricas do antissemitismo na Alemanha.
Apesar de seu entusiasmo pelo projeto, Heine não conseguiu vencer a amplitude e a aspereza do assunto. Entretanto, mesmo em seu caráter fragmentário, a obra constitui expressivo exemplo da arte narrativa de Heine e é o documento mais elucidativo de sua flutuante relação com o judaísmo. Os três textos publicados como apêndice enfocam a questão do fanatismo religioso e foram extraídos do volume Lutetia, em que Heine enfeixou 61 artigos escritos em Paris entre fevereiro de 1840 e maio de 1844, bem como quatro artigos dos anos 1843 a 1846.
Sobre Heinrich
Heinrich Heine (Düsseldorf, 1797—Paris, 1856) é um dos maiores nomes da literatura alemã. Seus primeiros poemas são publicados já em 1817, num jornal de Hamburgo. Em 1824 surge a coletânea lírica "Trinta e três poemas", na qual se inclui a canção "Loreley", uma das mais célebres de toda a literatura alemã. Neste mesmo ano faz uma viagem a pé pela região do Harz (norte da Alemanha), e em seguida visita Goethe em Weimar. Dois anos mais tarde publica a narrativa "Viagem pelo Harz", elaboração poética das observações, experiências e reflexões feitas durante a caminhada. Em outubro de 1827 vem a lume novo volume lírico, "Livro das canções", acolhido entusiasticamente pela juventude alemã, e que se torna, ao longo dos anos, uma fonte de inspiração para vários compositores de "Lieder", canções.
Em 1831, após concluir a quarta e última parte de seus "Quadros de viagem", emigra para Paris, de onde passa a enviar artigos para um influente jornal liberal alemão, "Augsburger Allgemeine Zeitung". Com suas obras, artigos e intervenções busca promover o intercâmbio cultural e a aproximação entre a França e a Alemanha, como atestam as seguintes palavras de Balzac: "Heine representa em Paris o espírito e a poesia da Alemanha, assim como encarna na Alemanha a crítica francesa mais viva e espirituosa". Depois de 12 anos de ausência, retorna à Alemanha para visitar sua mãe em Hamburgo. Elabora as impressões de viagem no longo poema "Alemanha, um conto de inverno", obra considerada por muitos como a maior sátira da literatura moderna. Em 1840, o governo francês concede"-lhe uma pensão no valor de 400 francos mensais, o equivalente ao salário de um professor universitário bem remunerado, mas apesar de seu prestígio na França, Heine tem a prisão decretada em vários estados da Alemanha e suas obras são cada vez mais visadas pela censura. Em 1848, a já abalada saúde do autor piora sensivelmente e a partir de então se vê preso ao que chamou de sua “cripta de colchões”, vítima de uma doença degenerativa que provoca dores atrozes, obrigando"-o a tomar altas doses de morfina. Contudo, sua produção literária prossegue intensa até os últimos dias de vida. Falece em 17 de fevereiro de 1856 e três dias depois é sepultado no cemitério de Montmartre.