Como ler clássicos da literatura sem sofrer
Clássicos intimidam. Linguagem difícil, contexto histórico distante, narrativa lenta. Mas há estratégias que tornam essa leitura não só suportável, mas prazerosa. Guia prático para iniciantes.
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Essa obra foi produzida entre os anos de 1854 e 1855 e restou inacabada em virtude da morte do pensador dinamarquês em meio à polêmica, o que, de certo modo, parece ter aumentado ainda mais o grau de sua dramaticidade e importância. Aqui, ao contrário de outros textos de Kierkegaard, onde são fartamente utilizados pseudônimos, aparece o próprio autor, sem o uso de tal recurso literário ou comunicativo, o que não quer obviamente dizer que o texto não esteja marcado pelo signo da ironia, pois essa percorrerá o todo de sua obra. Também não se trata aqui de uma obra ao estilo estético como outras, nem é tampouco uma obra de maior erudição filosófica como o Pós-escrito de 1846, ou ainda Conceito de ironia ou Conceito de angústia. O que temos aqui é um autor que claramente escreve teses em favor daquilo que ele veio a denominar como o crístico ou, se assim quiserem: em defesa do tipicamente cristão, da cristicidade em meio a cristandade. Tal defesa é dirigida ao homem comum, que deve ficar atento para não ser ludibriado e explorado por falsos profetas vestidos nas mais diversas peles como a de pastor, bispo, teólogo, professor, filósofo, etc. É curioso perceber que Kierkegaard, justo na segunda metade do século XIX, encontra-se totalmente encaixado numa típica forma de comunicação dos pós-hegelianos de esquerda, a saber, a produção de teses. Aqui podemos lembrar, sem medo de errar, das teses que, nesse mesmo período, são muito comuns entre os socialistas e entre os anarquistas, pois são deste mesmo período várias teses como as Teses a Feuerbach de Marx e a produção do Manifesto Comunista, aqui em coautoria com Engels. O Instante, por intermédio de seus dez fascículos, sendo o último inacabado em virtude da morte do autor, terá forte repercussão e impacto primeiramente em contexto religioso e teológico. Segundo certa interpretação, esse foi o Kierkegaard preferido de pastores e religiosos em luta contra a sua Igreja em contexto germânico e nórdico. Junto com esses fascículos também se somam os textos Como Cristo julga o cristianismo oficial e o discurso A Imutabilidade de Deus. Contudo, passado tal momento, percebe-se que os textos kierkegaardianos vão além de uma crítica que poderia estar inserida num domínio paroquial, mas apontam na direção de uma análise mais ampla da sociedade dinamarquesa e na crítica da sua cultura, alcançando, por assim dizer, aspectos éticos, morais e políticos, muitos dos quais, válidos ou vigentes até hoje.
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