Distopias literárias: os livros que previram (e alertaram sobre) o futuro
De 1984 a Jogos Vorazes, a ficção distópica é o gênero que mais acerta sobre o futuro. Uma análise de como esses livros moldaram o debate político e social.
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Um assassinato, um suspeito e muitas perguntas. Romance policial, investigação sobre os limites do desejo, experimento narrativo, o primeiro romance de Rubem Fonseca parece um jogo de espelhos, em que os personagens se desdobram, assim como a história e o próprio narrador, sem que saibamos quais são os originais e quais são os reflexos. Paul Morel é um artista de vanguarda que está preso pela suspeita de assassinato de uma de suas namoradas. Na cela, recebe a visita do escritor Vilela, ex-delegado que já aparecera no conto final de A coleira do cão (1965). Enquanto Morel pede ao escritor auxílio para escrever — não sabemos se um romance ou sua autobiografia —, Vilela enxerga no artista semelhanças com sua própria vida. O que lemos é o entrelaçamento de duas narrativas paralelas: ora estamos diante do manuscrito de Morel, ora é o narrador que assume a história. Até que, no final, as tramas se encontram em uma conclusão brilhante. Publicado em 1973, quando Rubem Fonseca já era considerado um dos principais contistas brasileiros, O caso Morel é um romance curto, em que o autor retoma e desenvolve temas já explorados em seus contos, como a arte, o sexo, a violência, a moral e a relação do homem com o mundo. Com o cuidado narrativo levado às últimas consequências, este é um livro que ultrapassa os limites do gênero policial em nome da complexidade da literatura.
Rubem Fonseca nasceu em 1925 e faleceu em 2020, pouco antes de completar 95 anos, deixando uma contundente obra com trinta livros, entre os quais romances, novelas, coletâneas de contos e "O romance morreu", que reúne crônicas publicadas no Portal Literal. Entre seus principais títulos estão "Lúcia McCartney" (1969), "O caso Morel" (1973), "Feliz Ano Novo" (1975), "O Cobrador" (1979), "A grande arte" (1983) e "Agosto" (1990). Em 2013 publicou, pela Nova Fronteira, "Amálgama", vencedor do prêmio Jabuti de sua categoria. Ainda recebeu outras cinco vezes o Jabuti; em 2003, os prêmios Juan Rulfo e Camões; e, em 2015, o Machado de Assis, concedido pela ABL, pelo conjunto da obra. Seu último livro publicado em vida foi a antologia de contos "Carne crua", de 2018.
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