Como criar um clube de leitura na escola (e por que isso muda tudo)
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O fim de tarde de uma alma com fome, o poema dramático de Sérgio Medeiros, tem ares pessoanos na ambientação indefinida e nebulosa, entre a noite e o dia, a vida e a morte, em que dois personagens, um soldado e uma velha, se conhecem e dialogam. Mas enquanto os poemas dramáticos de Pessoa procuram induzir o leitor a uma espécie de claustrofobia onírica, os três atos de O fim de tarde de uma alma com fome são voltados para fora, numa poética radical de intertextualidade. Já nas instruções de leitura, aprendemos que cada ato é uma versão (da mesma história?), e que os atos podem ser lidos em ordens distintas. E não é só isso: o leitor pode optar por substituir uma ou duas das versões por outros textos, entre os quais o Popul Vuh maia-quiché e o volume de clássicos amazonenses Makunaíma e Jurupari. O poema, então, compõe-se e recompõe-se nesse diálogo com obras distintas, onde o motivo comum é a cultura ameríndia na sua relação com as línguas e as culturas americanas. Dos vários textos que fazem parte desse diálogo intertextual, o mais importante é a narrativa pemon “Como os venenos azá e ineg, para matar peixes, vieram ao mundo”, de Makunaíma e Jurupari. É desse mito que vem o casal que dialoga no poema: a anta, isto é, a velha, ou alma canibal, e o humano – neste caso um soldado que se separou do seu pelotão. Como no conto pemon, o diálogo entre esses seres de espécies distintas é marcado por diferenças perspectivistas: o que para ela é uma cobra, para ele é um fogão; o que para ela são pérolas, para ele são carrapatos, e assim por diante. Mas se o perspectivismo, para Viveiros de Castro, se localiza no mundo mesmo das diferentes pessoas (pessoa anta ou pessoa humana), aqui ele é uma questão de língua. A poesia de Sérgio Medeiros surge precisamente dos jogos de entendimento e desentendimento entre essas duas línguas: a da anta (a velha ancestral indígena) e a do soldado (em outras palavras, o estado-nação) matricida. LÚCIA SÁ Universidade de Manchester
Sérgio Luiz Rodrigues Medeiros é um poeta, artista visual, dramaturgo, ficcionista, ensaísta, tradutor e professor brasileiro. Ganhou o Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2017 na categoria Poesia, com a obra A idolatria poética ou a febre de imagens.
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