Os melhores livros de psicologia para entender a mente humana
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'As uvas da raiva', de Sergio Bermudes – grande advogado e notável jurista – é obra que revela não apenas um cronista senhor de seu ofício, com senso de realidade, humor e concisão, mas também a competência do escritor em um gênero que, ao contrário do que alguns sustentam, não é menor: quando o escritor domina superiormente a linguagem, sua mestria fará a grandeza de um gênero. O autor, na linhagem de Rubem Braga (nascidos ambos em Cachoeiro de Itapemirim) – e a quem, in memoriam, dedica o volume –, escolhe para seu livro um título próximo ao do romance As vinhas da ira, de John Steinbeck, obra-prima da ficção do século XX. Na crônica que nomeia este volume, SERGIO BERMUDESconsidera boa uma tradução que não deixe vestígio da língua de origem. Quando refere que a substituição de As vinhas da ira por As uvas da raiva retiraria a força do original, pratica um ato de autoironia e humildade, comparando depreciativamente sua sugestão com o efetivo nome, entre nós, do romance norte-americano. Bermudes desfia seu novelo de crônicas como se fossem cachos de pródiga parreira, ora visitando o passado, ora captando, no presente, traços ou flagrantes do mundo, em que se misturam o amor à música, um pedido de professora, o namoro na calçada. Às vezes, conjuga magicamente a timidez congênita à praticada gramática, o afeto aos livros. Evoca o rádio, os estagiários de seu escritório, num caleidoscópio de situações que, no fundo, apontam para a transitoriedade da vida, para “a grande dor das cousas que passaram”, como escreveu Camões. O volume inclui alguns contos, harmonicamente situados entre as crônicas, dentre eles o primoroso “O quinto hóspede”, com seu lacônico e pungente desfecho. O autor também se debruça, com sabedoria, sobre Charles Chaplin, desgostoso de nele descobrir o homem sob o personagem Carlitos. Fala de Anchieta e do papa João Paulo II. Ostenta o gosto dos apólogos e das fábulas, onde entram o cotidiano de forno e fogão, as águas do carnaval (as águas rolam!), as guerras, o vizinho em lágrimas, um avião imenso, o caixão e a sogra, os maus conselhos, a missa em latim – todas essas crônicas com o toque certeiro da imaginação temperada por uma sensibilidade lírica. O cronista emprega com exatidão as palavras, na busca não de uma verdade pública, mas de sua verdade íntima, ainda que incidindo em coisas mínimas. Recordo-me de uma frase de Stendhal: “As menores coisas bastam, porque tudo é signo em amor”. O escritor Sergio Bermudes merece ser incluído entre os grandes criadores da crônica brasileira.
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