Mescla de elementos ficcionais conjugados com peças da vida real, A substituição ou As regras do Tagame, do autor vencedor do Prêmio Nobel Kenzaburo Oe, leva os leitores ao sublime por meio de diálogos, memórias e acontecimentos perturbadores.
Em elaborado jogo de espelhos, Oe traz à baila a persona de seu cunhado, o cineasta Juzo Itami (de Tampopo, os brutos também comem spaghetti, no título brasileiro), ora a de seu filho Hikari, ora a da irmã de Juzo Itami. Provêm também da vida real seus entreveros com os yakuzas, os mafiosos japoneses.
Nada é completamente fictício, e nada é real por inteiro. A dosagem é fluida. A reflexão sobre o criar, seja na escrita, seja na música, e aqui paira, sereno, o filho — mais uma vez a vida real se sobrepondo à romanceada. Ou o oposto...
Oe lança nesta primeira parte de sua grande trilogia da idade madura um árduo grito sobre a “vulnerabilidade fundamental do homem”, em seus próprios dizeres, e que ele remói a fundo para destrinchar as fronteiras abissais da amizade humana.
Sobre Kenzaburo
Kenzaburo Oe nasceu em 1935, em Ose, vilarejo das florestas de Shikoku, a menor das quatro principais ilhas do Japão.
Oe tinha seis anos quando estourou a Segunda Guerra Mundial, durante a qual seu pai morreria. Uma de suas avós era contadora de histórias e carregava assim os mitos e as tradições do clã Oe, impactando o jovem Kenzaburo.
Com a derrota do Japão na guerra, ocorreram enormes mudanças no país, inclusive onde cresceu Oe. Os alunos nas escolas passaram a receber uma educação diferente, aprendendo princípios ocidentalizados, ao que Oe manifestaria reservas. Aos dezoito anos, pegou pela primeira vez o trem até a capital do país e, um ano depois, estudava literatura francesa na Universidade de Tóquio. Através da influência do realismo grotesco de Rabelais, passou a reinterpretar a história de seu povoado e a sua própria.
Começou a escrever em 1957. Compôs um poderoso ensaio sobre o bombardeio atômico de Hiroshima e o terrível legado da catástrofe, além de uma extensa lista de ficção que se utiliza bastante do Japão pós-guerra para retratar uma geração marcada por tanta tragédia. Assume então uma posição pacifista e antimilitarista que marcaria fortemente sua atuação cívica.
A vida e a carreira literária de Oe entraram em crise com o nascimento de seu primeiro filho, Hikari, portador de uma deformidade craniana que lhe resultou em comprometimento cognitivo. Apesar disso e mesmo por causa disso, Oe adquiriu novo fôlego e nova perspectiva sobre a vida e a escrita, em que Hikari tomaria uma posição central.
No Brasil, já foram publicadas as obras Uma questão pessoal (2003), Jovens de um tempo novo, despertai (2006), 14 contos de Kenzaburo Oe (2011) e Morte na água (2021), todas pela Companhia das Letras.
Recebeu os mais importantes prêmios literários do Japão, incluindo o Akutagawa, o Tanizaki e o Yomiuri; em 1994 foi premiado com o Nobel de Literatura. Atualmente vive com a mulher e o filho Hikari em Setagaya, bairro de artistas e intelectuais nos arredores de Tóquio.