Como a leitura pode acelerar sua carreira profissional
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Durante a Segunda Guerra Mundial, três japonesas abastadas divertiram-se como quiseram, enquanto seus maridos deviam ter assuntos masculinos, econômicos e bélicos em que pensar. Passado o conflito, elas, agora divorciadas, donas de si e de negócios próprios, e ainda em busca de diversão, encontram-se com frequência para comentar suas aventuras, sobretudo as amorosas. Através de uma história aparentemente banal, da relação entre Taeko, uma dessas mulheres, e Senkichi, um rapaz que se muda para Tóquio e tenta melhorar de vida, Yukio Mishima produz com A escola da carne um romance que reflete a “confusão do pós-guerra”. Taeko é estilista, elegante e bem-sucedida; já Senkichi vive na grosseria, embora saiba apresentar-se também com gentileza, bom arrivista que é. Ambos têm em comum o contato com o mundo ocidental: ela pela high society, ele por receber clientes estrangeiros no bar gay em que trabalha. Senkichi, no entanto, jamais quis aprender inglês, como era comum a seus colegas, porque “era nacionalista nesse sentido e [...] mostrava arrogância e mantinha-se calado”. Nessa relação inédita entre pessoas de diferentes classes sociais dentro de uma nação atordoada pela guerra e conflituosa quanto a que direção tomar, estão borradas e movediças as estipulações de quem ensina e quem aprende. Mishima, que tinha posições políticas tradicionalistas, controversas e radicais, em A escola da carne incorpora posições contrárias às suas, concedendo entrementes a seu narrador o capricho de poder descrever com pompa e extravagância a indumentária que os personagens da narrativa vestem. Compõe assim, esteticamente, por meio da ficção, um embate de éticas que reproduz uma sociedade japonesa em transformação e aprendizado. A escola da carne, publicado no Japão conservador do início da década de 1960, é ainda arrojado o bastante para fazer quase que um culto do corpo, principalmente o masculino, e expor sem hesitação questões da homo e da transexualidade, muito à frente de seu tempo.
Yukio Mishima, nascido Kimitake Hiraoka em Tóquio em 1925, estreou na literatura com apenas dezenove anos. Pouco depois, com Confissões de uma máscara (1949) e Cores proibidas (1951), firma-se como o grande talento artístico de sua geração. Mesclando influências ocidentais e orientais, explorando tabus temáticos, como a homossexualidade e o culto ao corpo masculino, e produzindo excessivamente, Mishima não separa sua arte de suas próprias ações. Cada vez mais crítico da ocidentalização do país no pós-guerra, ele leva seu nacionalismo ao extremo em 1970. À frente de seu grupo paramilitar Tate no kai, invade um quartel do Exército japonês em Tóquio buscando incitar um golpe de Estado que devolveria os poderes divinos ao Imperador. Sem obter a acolhida esperada, termina seu discurso e comete seppuku, suicídio ritualístico samurai, deixando perplexos seus milhões de leitores no Japão e no mundo. Pela Estação Liberdade, o autor teve publicados Kawabata-Mishima: Correspondência 1945-1970 (2019), volume que traz as cartas trocadas entre ele e seu conterrâneo e Prêmio Nobel Yasunari Kawabata; e os romances Vida à venda (2020) e O marinheiro que perdeu as graças do mar (2022).
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