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Fragmentos de Um Dicionário de Política Radical
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A an-arquia que vem – fragmentos de um dicionário de política radical , de Andityas Matos, com prefácio do filósofo italiano Roberto Esposito, corresponde à tentativa de criticar o léxico político empobrecido a que estamos acostumados, e pensar outros, por meio de verbetes morte, linguagem, comunidade, anarquia, pandemia, povo, democracia, utopia, distopia, estado de exceção, desobediência civil, política e teologia. O livro se encerra com dezoito teses – ao estilo benjaminiano – em que a figura do anarquista francês Ravachol, “a voz da dinamite”, é evocada para desinstituir as relações entre tempo, espetáculo e exceção. A obra propõe que o léxico constitui o conjunto de palavras e expressões de que dispõem os falantes de certa língua para exprimir seus pensamentos, sendo exatamente neste sentido que a noção de léxico político, ou seja, um conjunto de formas pelas quais se pode pensar e experimentar a pólis , ou melhor, o poder, deve ser compreendida. A partir dessa constatação, é lançada a hipótese segundo a qual a prolongada crise que atinge a política ocidental é resultado daquilo que podemos chamar de dicionarização da política . De fato, o dicionário é o dispositivo que pretende capturar em um todo fechado a multiplicidade da língua. Transposto para a política, esse esquema indica a tentativa de definir, de uma vez por todas, o que é a política e quais são seus procedimentos – tudo aquilo que fica de fora passa a ser visto como antipolítica ou irresponsável utopia. Os lexicógrafos da política são as instâncias que personalizam o poder, que não só o exercem, mas o impõem aos demais enquanto fardo, controlando e determinando quais são as escolhas que podemos fazer, todas elas fixadas e rotuladas no dicionário da institucionalidade. Nesse sentido, a crise da política que mencionamos anteriormente pode ser entendida como a percepção de que há algo fora do dicionário, de que a língua da política não sedeixa cercar e domesticar, pois muito antes de quaisquer modelos ou desenhos institucionais se impõe a evidência da infundamentabilidade de qualquer poder, o que chamamos aqui de an-arquia , ideia que se comunica mas não se confunde com os anarquismos históricos. Pensar politicamente significa pensar um fundamento sempre ausente e por isso mesmo recusar o gesto grandiloquente do dicionário total, preparando no máximo alguns verbetes fragmentários relativos a uma política que não se traduz em instituições constituídas tradicionalmente, mas remete à radicalidade da própria política, à sua raiz an-árquica , tratada de forma genealógica e crítica. A Coleção Rastilho é um processo editorial que pretende costurar o pensamento que tem se desenvolvido em torno do anarquismo contemporâneo, curando, traduzindo e editando minuciosamente um elo de formação radical aberto à paixão e ao exercício insurgente da vida. A sobinfluencia propõe, com essa coleção, a ignição de um rastro de pólvora que teve início muito antes de nosso tempo, questionando sua linearidade e inflamando as lições coletivas tecidas pelo pensamento anarquista através da prática de liberdade e responsabilidade com o pensamento presente.
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Andityas Soares de Moura Costa Matos (Barbacena, 1979) é Doutor em Direito e Justiça pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Realizou estágio Pós-Doutoral em Filosofia do Direito na Universitat de Barcelona e é Doutor em Filosofia pela Universidade de Coimbra. Atua como Professor Associado de Filosofia de Direito e disciplinas afins na Faculdade de Direito e Ciências do Estado da UFMG. Autor de Filosofia Radical e utopias da inapropriabilidade: uma aposta an-árquica na multidão (Fino Traço, 2015), e coautor, com Francis García Collado, de O vírus como filosofia/A filosofia como vírus: reflexões de emergência sobre a COVID-19 (GLAC, 2020), entre outros.
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