Como criar sua estante virtual de livros (e por que você deveria ter uma)
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Por que uma jovem poeta, forjada na linguagem das criações contemporâneas, traria Lázaro de volta? O Lázaro bíblico, conta-se, foi ressuscitado por seu amigo Jesus depois de quatro dias sepultado e saiu andando em meio à multidão encantada com os poderes divinos. No novo livro de Natasha Felix, o regresso de Lázaro também pode ser visto como uma demonstração de poder — mas da poesia, capaz de explodir os limites do nosso mundo e da nossa mente, reavendo a vida onde pousou a morte. Sob a aparência fragmentária e utilizando recursos da dramaturgia, Três vezes Lázaro une suas criaturas (deuses, fiscais fungos) para compor as cenas em que esse personagem múltiplo desfila suas/nossas chagas. A variação formal dos poemas, aliás, já é uma maneira de reproduzir as aparições e desaparições de Lázaro, o seu livre trânsito entre mundos, o seu escorregar entre real e irreal: “É tudo tão real quanto você imagina”. É na imagem de alguém que não se dobra à fronteira entre existir e não existir que Natasha Felix simboliza também outras fronteiras (muros, cercas, portas, passaportes, leis) que definem o nosso mundo, confinando corpos, ideias, sonhos, e assim as desafia. Os leitores que já conhecem a exuberância poética de Natasha Felix — seus versos que transbordam dos livros para o palco e a pista, para a voz e o quadril, e vice-versa — podem imaginar que Lázaro também não ficará quieto nessas páginas. Lázaro vai andar por aí, indiscernível e inconfundível, um pouco como cada um de nós. Quem renasce, aqui, é também quem lê. Eis o milagre, eis a pilantragem.
Natasha Felix nasceu em Santos (SP), em 1996. Poeta e performer, é autora de Use o alicate agora (Macondo, 2018) e Inferninho (Círculo de Poemas, 2024). Integra as antologias Nossos poemas conjuram e gritam (Quelônio, 2019) e As 29 poetas hoje (Companhia das Letras, 2021).
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