Os melhores livros sobre feminismo para todos os níveis de leitura
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O olhar de Silvia Fernandes sobre o teatro contemporâneo brasileiro caracteriza-se por uma análise crítica e sensível às transformações que atravessam as práticas cênicas atuais. Ela parte do reconhecimento de que o teatro atual tem por marca uma intensa pluralidade e hibridismo, recusando categorizações rígidas e fronteiras estáveis entre linguagens artísticas. Para a autora, o teatro de hoje é um campo em constante reinvenção, onde artistas, encenadores e dramaturgos buscam expandir os limites do que pode ser considerado teatral, dialogando com outras artes, com o real e com a história. Tomando como exemplos alguns dos principais espetáculos levados à cena a partir dos anos 1990 ( Os Sertões – Teatro Oficina, O Paraíso Perdido – Teatro da Vertigem, BR -3 – Teatro da Vertigem, Corte Seco – Christiane Jatahy, A Vida é Cheia de Som e Fúria – Antunes Filho (CPT), Por Elise – Cia Marginal, Hospital da Gente – Clariô, O Povo do Cafundó – Cia São Jorge de Variedades, Auto dos 99 – Ói Nóis Aqui Traveiz), Silvia Fernandes destaca que o desejo de real, presente nas pesquisas teatrais contemporâneas, não se limita à experimentação formal, mas revela uma abertura ao outro, ao mundo e às questões sociais e políticas. Essa abertura se manifesta tanto na escolha de temas quanto na adoção de processos colaborativos e coletivos, especialmente no teatro de grupo, que ressurge com força a partir dos anos 1990. Nesses coletivos, a criação se dá de modo compartilhado, atualizando práticas dos anos 1970, mas com novas preocupações e estratégias, muitas vezes voltadas para o engajamento social e a reflexão crítica sobre o próprio fazer teatral, daí a dissidência tanto estética como política. Outro aspecto central da abordagem adotada por Teatralidades Dissidentes é a valorização do processo criativo em detrimento do produto acabado. Ela observa que muitos espetáculos contemporâneos assumem a precariedade, o inacabamento e a imperfeição como parte constitutiva da experiência teatral, propondo ao espectador uma vivência compartilhada e aberta, em oposição à lógica do espetáculo comercial. Sílvia Fernandes também enfatiza a diluição das fronteiras entre dramaturgia, roteiro, prosa e reportagem, apontando para uma dramaturgia expandida, que se alimenta de múltiplas fontes e desafia a especificidade do texto teatral tradicional. Recorrendo a conceitos como teatralidade e performatividade para analisar a produção heterogênea do teatro de hoje, a autora destaca que essas categorias teóricas são fundamentais para compreender experiências cênicas que operam com múltiplos enunciadores e modos de presença. Teatralidades Dissidentes traz, portanto, uma abordagem, histórica e conceitual, aberta, investigativa e atenta às tensões entre tradição e inovação, entre o individual e o coletivo, entre o artístico e o político, sempre buscando compreender como o teatro se reinventa diante das demandas do presente.
Professora titular sênior do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo – ECA-USP. Pesquisadora do CNPq, com ênfase em teatro brasileiro contemporâneo e teoria teatral. É autora de Sobre o Trabalho do Ator (com Mário Meiches, 1988), Memória e Invenção: Gerald Thomas em Cena (1996), organizadora de Um Encenador de Si Mesmo: Gerald Thomas (com J. Guinsburg, 1996), Teatro da Vertigem BR3 (com Roberto Audio, 2006), O Pós-Dramático: Um Conceito Operativo (com J. Guinsburg, 2008) e Teatralidades Contemporâneas (2010), todos pela Perspectiva, além de Grupos Teatrais, Anos 70 (Editora da Unicamp, 2000). É organizadora de A Arte de Brincar no Palco Sem Pedir Licença (Edições Sesc-SP, 2008), Théâtres brésiliens: Manifestes, mises em scène, dispositifs (organizado com Yannick Butel, Presses Universitaires de Provence, 2015), Antonio Araújo et le Teatro da Vertigem (Presses Universitaires de Provence, 2016), Teatro da Vertigem (Cobogó, 2018), O Teatro Como Experiência Pública (organizado com Óscar Cornago e Júlia Guimarães, Hucitec, 2019) e Políticas da Cena Contemporânea: Comunidades e Contextos (organizado com José Da Costa, Hucitec, 2023). Foi coeditora da revista Sala Preta e dramaturgista de alguns espetáculos do Teatro da Vertigem.
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