Um tema recorrente, sempre que se fala de livros, é o de se saber se a reportagem jornalística pode ou não ser considerada literatura. A resposta sempre me pareceu óbvia: depende de quem a assina. As reportagens da jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho, que acompanho há anos, são sem dúvida literatura, excelente literatura. Alexandra viajou largamente pelo Oriente Médio, Afeganistão e América Latina, quase sempre em serviço para o jornal Público. Destas viagens resultaram um conjunto de títulos: Oriente Próximo, sobre as relações entre israelitas e palestinos, Caderno afegão, e Viva México.
Nas reportagens de Alexandra, como na maioria dos bons romances, há vidas que queremos acompanhar, e acompanhamos, personagens que continuam conosco mesmo depois que viramos a última página. Ao fim de todos estes anos continuo a ler Alexandra Lucas Coelho com o mesmo entusiasmo dos primeiros tempos, porque nos textos dela, como na vida, a surpresa nunca se esgota. Para além da curva do rio há uma história que se revela.
Pequenos milagres e o seu fulgor. Quando, no início deste ano, milhares de jovens egípcios ocuparam a praça Tahrir, no Cairo, para exigir o fim da ditadura, Alexandra pediu uma semana de férias, e foi viver a revolução. Portanto, este livro, que agora o leitor tem nas mãos, não resulta de um conjunto de reportagens encomendadas para um jornal. É, na verdade, o diário de uma viagem feita por iniciativa própria, o resultado do esforço generoso, da coragem e da dedicação de uma grande escritora, que decidiu testemunhar o nascimento de um grande sonho.