Livros essenciais para entender a história do Brasil
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“Acontece de uma pequena cobra se alinhar na coluna vertebral daqueles que aceitam”. Assim começa este belo e instigante romance de Camilla Loreta. Um início que já aponta um caminho, é um livro-travessia, e transita entre diferentes realidades, entre a vigilia e o onírico, entre o corpo e o espírito, passado e presente, matéria e reflexo. A protagonista, Léia tem um pai. Senta com ele à mesa da cozinha, come pão feito em casa e se pergunta se ele sente falta da mulher que morreu, como se tentasse resgatar nesse pai alguma lembrança intransponível. Ambos moram em Lublin, na Polônia. No passado dela no Brasil. A mulher que morreu é a mãe de Léia. O pai é tradutor. E há James, o astronauta que faz anotações num caderno vermelho. Um astronauta pode viajar para outros planetas. Mas é um acontecimento muito específico que a leva Léia (a personagem que carrega em seu nome o imperativo da leitura) a essa travessia: uma queda do corpo, a visão enevoada, os pés e mãos quentes. Uma ausência que estará ligada à descoberta de duas mulheres, Papusza, uma cigana polonesa e Sydonia, última princesa da Pomerânia que, acusada de bruxaria morreu decapitada e queimada. Uma habita marte outra a lua. Personagens pelas quais ela se interessava desde os tempos da faculdade, e que numa coincidência (não existem coincidências), aparecem nas anotaçoes do astronauta. E de certa forma, é a partir desse encontro que Léia empreende uma viagem para Helsinki, onde o seu pai está a trabalho. Mas uma viagem pode nos levar por lugares muito antigos. E assim, Camilla Loreta nos leva pela mão por um tempo ancestral, consciência alterada do corpo, linguagem lírica dos sinais. É preciso saber ler, junto com os personagens, o que a vida desponta. E chegando ao final, saímos com a certeza de que a travessia é ao mesmo tempo individual e coletiva, e se repete no tempo e no espaço. E um dia, uma pequena cobra se alinha na coluna vertebral.
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