Os melhores livros sobre feminismo para todos os níveis de leitura
Do manifesto clássico ao ensaio contemporâneo, o feminismo tem uma biblioteca vasta e acessível. Uma seleção para quem quer entender o movimento que transformou o mundo.
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"A coleira que me passaram em volta do pescoço irrita-me nessa noite de luar. Na realidade, não sou além da projeção enjaulada de uma genialidade inconsciente. Mas sou uma existência!" O conto chamava-se "O Elo". Sua autora, Maria Odete Olsen tinha pouco mais de vinte anos e era a grande revelação de concurso literário promovido pela Fundação Catarinense de Cultura, em 1979. Demonstrou desde os verdes anos um domínio técnico invejável em poesia e em narrativas curtas. Deverá ter contribuído para o ofício o duro batente de jornalista, em que se empenha desde a adolescência – primeiro no Jornal de Santa Catarina, em Blumenau, e depois na televisão, onde atualmente apresenta programas que incluem entrevistas com convidados. Mas como ocorre a outros escritores do Brasil meridional, é freqüentemente esquecida, inclusive por seus conterrâneos. Tal atitude, aliás, é recorrente na literatura brasileira. Os Estados aguardam que o eixo Rio-São Paulo consagre os talentos para só então reconhecê-los. Há dois estados que representam solitárias exceções no panorama nacional. São a Bahia e o Rio Grande do Sul. Esses trazem os seus valores, apresentando-os e proclamando-os, fazendo valer o reconhecimento da terra natal. Durante largo tempo o Brasil procedeu do mesmo modo e ainda hoje apresenta restos dessa concepção, haja visto o destaque que as editoras nacionais dão às traduções de autores que são importantes pelo que escrevem aqui, não por terem saído em outros países. Aliás, às vezes a traduções não conseguem trazer o pretendido holofote. Pois Maria Odete Olsen está com novo livro na praça. E é colega de catálogo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso numa editora, a Insular, marcada por livros bem cuidados. O livro, um belo projeto gráfico e editorial, tem por título Poemas Infames: sentimentos e algumas impropriedades. É um livro bonito antes de começar a ser lido. Depois fica muito mais. Fotos de Lair Leoni Bernardoni e Rosane Lima quase enfeitiçam o projeto gráfico de Carlos Alberto Serrao e as vinhetas de Ney Vidal Filho. O editor responsável, Nelson Rolim de Moura, é o que se pode chamar tautologicamente de editor responsável, pois soube reunir uma competente equipe para cuidar desse livro. Verso bonito Maria Odete Olsen diz, entrediz, sussurra ou grita o que tem a expressar, de acordo com o que pretende despertar. Na dedicatória, já deixa vislumbrar as primeiras heresias: "É um livro que dedico às mulheres que vivem ou viveram suas transições pessoais com verdade e intensidade, sem o temor de soltar, encarar ou domar seus anjos e demônios". Como diz Sérgio da Costa Ramos num texto sugestivamente denominado "Madona do Verso", sua poesia lembra em alguns trechos a inquietação que marcou um de nossos grandes poetas, precocemente falecido, o também catarinense Lindolf Bell. São marcas dessa escritora a sensualidade e a ousadia frente aos seculares impedimentos impostos à condição feminina, dos quais poucas se libertaram, pois tivemos e temos em nossas escritoras, não raro, uma submissão à escrita dos homens, o que resulta em perda na arte de intuir e expressar, pois a espécie tem suas sutis complexidades. E alguns fenômenos somente elas podem expressar com a devida autenticidade. Vejamos algumas amostras. Ao lado de um texto de Françoise Sagan, que certamente lhe serviu de inspiração, lemos em "Solitudes": "Ah como o cérebro é opressor impiedoso e inacessível/ como é deprimente saber-se instrumento de diálogos internos/ a voz de dentro que empurra ao mesmo tempo que retém/ assim vivi o momento refém de mim e de outros/ nas fotos nos quadros e nas violetas que voltam a florir no inverno!" Ao lado de autores experientes e consagrados, como Salim Miguel, Eglê Malheiros e Adolfo Boos Jr, a escritora inclui-se numa geração intermediária onde despontam nomes como o de Sérgio da Costa Ramos, um dos maiores cronistas brasileiros – em atividade diária na imprensa, no Diário Catarinense, de Florianópolis. À semelhança de Sérgio, faz do jornalismo, especialmente do telejornalismo (no caso de Maria Odete Olsen) uma espécie de oficina de experimentação, meio de aperfeiçoar também a arte de escrever. Para finalizar, mais pequena amostra, de "Predadora": "Não importa como se move o vulto/ se homem mulher ou bicho/ não importa o signo do ideário louco/ que nas colunas induzem apetites cheiros e padrões". Maria Odete Olsen andou à beira de terríveis abismos para escrever esse livro. Sempre que a vulgaridade, vizinha da ousadia, ameaçou entrar em seu texto, ela soube onde refugiar-se: no exemplo dos mestres literários que abriram corajosamente outros caminhos para a contida expressão das sexualidades em nossas letras, freqüentemente submissas ao projeto catequético dos jesuítas tantos séculos depois. Poemas Infames: sentimentos e algumas impropriedades é um feitiço literário, um livro apaixonante, daqueles que compramos nas livrarias para dar de presente a amigos que sabem degustar um verso bonito, um achado, um n
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