Como ler clássicos da literatura sem sofrer
Clássicos intimidam. Linguagem difícil, contexto histórico distante, narrativa lenta. Mas há estratégias que tornam essa leitura não só suportável, mas prazerosa. Guia prático para iniciantes.
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"Os olhos tremeram ao transmitir os impulsos eletroquímicos e o cérebro pulsou inundado de sangue numa tentativa pífia de decodificar o que os olhos viam. Por falta de parâmetro de comparação, o córtex visual entregou a imagem de uma criatura quase humanoide em seus traços, exceto pelo fato de que a pele era composta de escamas verdes acinzentadas, movendo-se constantemente em direções impossíveis. Não havia cabelos ou nariz. Nem mesmo fossas nasais, apenas, sobre a área em que devia haver lábios, uma profusão de incontáveis tentáculos movendo-se desordenadamente, fazendo- lhe as vezes de bigode, queixo e maçã do rosto. Mas o pior de tudo eram os olhos. A começar do fato de que o plural não era aplicável. Um único globo ocular, maior do que cinco olhos humanos, ocupava a região central do que poderia se chamar de rosto. Não havia pálpebras. Em seu lugar, dezenas de pequenos vermes brancos devoravam carne e escamas, passando-se por contorno. A esclera de um vermelho só antes visto nas trincheiras da primeira guerra e a íris … a íris de uma imensidão negra e incomensurável que parecia minuciosamente projetada para clarificar a insignificância da alma humana na vastidão da existência. Um décimo de segundo daquela visão foi o suficiente para que a personalidade dele se fragmentasse em outras cem. E para que essas cem desaparecessem alegremente na eterna noite do esquecimento. Ou teria sido, se essas mesmas não tivessem imediatamente se reunido num impulso de curiosidade ridícula quando a criatura falou: —Bom dia, senhor. Teria um momento para ouvir sobre a palavra de nosso senhor Cthulhu?"
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