Os benefícios comprovados da leitura para o cérebro e a vida
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No inicio dos anos 90, um navio suspeito joga alguns milhares de latas que, Singrando o mar azul verdejante, balançam ao som de uma graciosa ode a Popeye. Assim, numa vaga manhã, de ar pastoso, de céus profundos, as latas dão o ar da graça no litoral paulista, entrando na corrente sanguínea do povo, somando-se ao aluvião de fatos que mudariam Brasil. O que se gestava, paria agora a sua alegria. Oscar Cesarotto traça, a partir destes sinais de expulsão da velha noite, um estrondoso painel da época, divertida como poucas, graças a uma impagável e reconhecível flora e fauna, que já naqueles tempos invadia a nossa praia. Com um estilo inimitável, espécie de picaresca pop, sua novela recria, em conserva, aquele momento barulhento, esperançoso, em que se podia sentir a passagem do tempo, espargindo o pólen, embarrigando a vida. A multidão alegre e desigual invadia com seus cantos e atitudes todos os recantos da vida social, removendo os entulhos autoritários vindos de 64, fazendo trepidar o sol e as estrelas. A plebe ignara, adentrando a noite e o dia, expulsou as sombras indistintas, o ar pesado dos quartos, fazendo da contemplação uma rara beleza, pontuada por fogos trepidantes ou pela branda luz das velas. Foi então que os segredos das noites opacas, tenebrosas, foram para o espaço. Abria-se, para um país antes abafado, um mundo que cacarejava rumo ao futuro. Lançando mão de expressões fora de uso, de lugares comuns da língua, de palavras já esvaziadas, Cesarotto constrói a sua novela com um humor impar, fruto de sua materialidade oral, dando voz a uma turba alegre, que passou seu recibo de descompostura ao cenário crispado da política e da cultura, fazendo do gozo a sua expressão maior. Da lata! Essa expressão, nascida num ensolarado verão brasileiro, converteu-se num dos motes mais repetidos, e numa verdadeira lenda urbana. Samuel Leon
Possui graduação em Psicologia - Facultad de Filosofia & Letras de La Universidad de Buenos Aires (1977), e doutorado em Comunicação & Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998). Atualmente, exerce a prática clínica, é professor da PUC-SP no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação & Semiótica, e coordenador do curso de especialização Semiótica Psicanalítica - Clínica da cultura (COGEAE).Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Semiótica & Psicanálise, atuando principalmente nos seguintes temas: Lacan, Freud, sexualidade & linguagem.
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