Por que reler um livro é sempre uma experiência diferente
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Nestas duas conferências – “O que é a crítica?”, de 1978, e “A cultura de si”, de 1983, – Michel Foucault retoma a ideia de “crítica” a partir de um texto de Kant, “O que é Aufklärung?” (“O que é Esclarecimento”). Seguindo Kant, Foucault define a crítica, principalmente, como uma “atitude”, um “gesto” de insubordinação, de desobediência, de abandono da “servidão voluntária” às estratégias de dominação. Para além de Kant, entretanto, Foucault faz uma genealogia da ideia de “crítica” para encontrar gestos semelhantes em outros momentos da história ocidental. A filosofia passa a ser redefinida como “atitude crítica”, não apenas um trabalho teórico de reflexão, mas principalmente como um “modo de vida” marcado pela permanente insurgência. Mais do que exercícios eruditos de comentário filosófico, as conferências expõem a maneira singular como Foucault transforma a herança kantiana em uma caixa de ferramentas para pensar a atualidade. De um lado, a crítica entendida como um modo de viver, como a “arte de não ser tão governado”, uma ação definida pela insubmissão, pela rebeldia. De outro, a cultura de si retomada na tradição greco-romana para repensar as formas de subjetivação modernas. Organizado pelos especialistas Henri-Paul Fruchaud e Daniele Lorenzini, o volume conta ainda com uma introdução substancial que situa os textos no percurso intelectual do filósofo e com notas críticas que esclarecem referências históricas e conceituais, permitindo ao leitor compreender a articulação entre crítica, Aufklärung (Iluminismo ou Esclarecimento) e cultura de si no conjunto da obra foucaultiana.
Paul-Michel Foucault nasceu em 15 de outubro de 1926 em Poitiers, na França. Entre 1946 e 1952, estudou na Escola Normal Superior (ENS) com professores como Jean Hyppolite, Maurice Merleau-Ponty e Louis Althusser, especializando-se em filosofia e psicologia. Em 1948, tentou o suicídio e foi internado no hospital Sainte-Anne, onde, mais tarde, pesquisaria a relação entre pacientes e psiquiatras. Ingressou no Partido Comunista Frances (PCF) em 1950, mas, decepcionado com o stalinismo, desfiliou-se em 1953. De 1951 a 1955, deu aulas na ENS; entre seus alunos estava Jacques Derrida. Em 1952 e 1953, especializou-se em psicopatologia e em psicologia experimental pelo Instituto de Psicologia de Paris e passou a lecionar na Universidade de Lille. Em 1955, a convite de Georges Dumezil, foi chamado a ocupar o cargo de leitor de francês na Universidade de Uppsala, na Suécia. Ali, tornou-se também diretor da Maison de France e dedicou-se a escrita de sua tese, da qual resultaria o livro História da loucura na idade clássica, publicado na coleção dirigida por Philippe Aries. Nos anos seguintes, trabalhou como adido cultural na Polonia e na então Alemanha Ocidental. Obteve o título de doutor em 1961, tendo Hyppolite e Georges Canguilhem como relatores. Em 1962, Foucault tornou-se professor titular na Universidade de Clermont-Ferrand, onde dirigiu o Departamento de Filosofia. Em 1970, foi eleito para a cátedra de História dos Sistemas do Pensamento no College de France e, em 1981, tornou-se professor visitante da Universidade da California em Berkeley, nos Estados Unidos, ganhando notoriedade em ambas as instituições devido a suas conferências sempre lotadas e consagrando-se como intelectual público de renome internacional. Ao longo da vida, Foucault também ocupou postos acadêmicos em uma série de outras universidades na Franca e no exterior, incluindo a Universidade de Vincennes (atual Paris 8), a Universidade de Tunis e a Universidade de Nova York; e passou períodos extensos conduzindo pesquisas em países como Estados Unidos, Canada, Itália e Japão. Viajou ao Brasil algumas vezes e, em 1975, acompanhado do então estudante Jose Castilho Marques Neto, proferiu um discurso em que abdicou de dar aulas na Universidade de São Paulo (USP) por se recusar a permanecer em um país sob uma ditadura militar. Ainda em São Paulo, participou da missa ecumênica em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos porões da ditadura. Foucault faleceu em 25 de junho de 1984, em Paris, em decorrência da aids, enquanto trabalhava no último volume de História da sexualidade.
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