Como manter a concentração durante a leitura na era das distrações
O smartphone acabou com nossa capacidade de atenção, ou será que não? Técnicas comprovadas para ler com profundidade mesmo quando o cérebro insiste em pedir estímulo a cada minuto.
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O porto é o que resta da partida. Ele está aqui, mas de modo particular. É a plataforma a partir da qual se vislumbra o outro lado , o outro mundo. Não se trata de lamentar a partida ou de relembrar o que se foi, o que se deixa. Mas de constatar o tempo e o espaço da experiência, a percepção de que a memória só se revela plenamente quando exposta ao esquecimento. Trata-se de datar a travessia, o interregno. — O outro mundo está sempre perdido. — O outro mundo está aqui. Ele está na ambivalência de uma segunda pessoa textual, de uma voz que diz , mas que também é convocada (“Venha ver”), logo de início, para algo que já não se mostra. Aquilo que procuramos nos encontra : o outro mundo vem a este como resto ou detrito de outra coisa. A escrita de o porto é inquieta, mas delicada, sempre à beira da perda, mas nunca descuidada dos acontecimentos. Os textos se completam sem a preocupação em afirmar sua autonomia ou em cumprir um programa, narrativo ou reflexivo, assumindo integralmente a ambivalência de uma escrita aventurosa que se alimenta daquilo que resta, que se nutre do embate com o acabamento. “Toda luta é contra as formas.” Sua dicção está mais próxima do sussurro, que dispensa a escuta nítida. Na bela reflexão sobre o tempo e a memória (a partir da epígrafe de Pascal Quignard: “o que resta daquilo que passa é como o outro mundo do mundo”), o tempo reaparece na antiga metáfora da água corrente, da água que se forma das gotas e que atinge um imenso (mas nunca inerte) mar. Antes cristalizadas, a expectativa e a memória se movimentam, se dissolvem. Tudo “desmancha devagar para se tornar passado”. O atraso é um modo do tempo. O tempo que Leda Cartum afirma ter levado para escrever este texto, a necessidade da travessia em direção ao livro, é o tempo necessário para que a gota da experiência (que dispensa a memória) se aproxime da gota da escrita (miniatura do passado, “souvenirs”). A vida, de fato, é um puro depois, ao qual a escrita procura dar algum empuxo, salvando do amálgama seus diferentes tempos, que se atraem como gotas d’água. O passado como tal, o outrora, aquele “sem precedentes” embarcou numa nave e transformou-se em tempo. Ele reaparece, na capa de o porto , na condição de um velho navio. Marcos Siscar
Leda Cartum nasceu em São Paulo, em 1988. Publicou seu primeiro livro, As horas do dia – pequeno dicionário calendário (7Letras), em 2012. Trabalha com a escrita em diversas áreas, desde roteiro e dramaturgia até editoração e tradução. Hoje, conclui o mestrado a partir da obra do escritor francês Pascal Quignard. Este o porto foi feito durante quatro anos, num aprendizado da espera e da paciência como formas de criação.
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