Como recomendar livros para amigos sem arruinar a amizade
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Em O pecado original do século XX, Domenico Losurdo faz uma análise rigorosa da vertente historiográfica e política que busca retratar a Revolução de Outubro e as experiências socialistas como os marcos inaugurais e exclusivos do horror no século passado. Partindo da tese de que o comunismo seria o “pecado original” da modernidade, Losurdo argumenta que tal perspectiva opera a “remoção colossal” do colonialismo e do imperialismo da história, ocultando a violência em massa que já estava em curso muito antes de 1917. A radical brutalidade do Terceiro Reich surgiu do vácuo ou foi alimentada pela tradição colonial das potências ocidentais? Os campos de concentração, a redução de populações subjugadas à condição de “sub-humanas” e a defesa do genocídio foram criações do nazismo ou práticas coloniais antes empregadas na África, na Ásia e na América pelas nações que se autoproclamavam representantes da civilização? A herrenvolk democracy (democracia para o povo dos senhores) seria a expressão do paradoxo das democracias liberais, que ampliaram direitos no plano interno enquanto sustentaram regimes de escravidão, segregação racial e despotismo nas colônias? A Revolução de Outubro, por outro lado, poderia ser avaliada apenas por seus resultados internos ou também por seu papel de ruptura com a supremacia branca global e com os mecanismos de exclusão racial, de classe e de gênero? Teria o movimento comunista fornecido alguma contribuição para o advento da democracia contemporânea e do Estado social ao impulsionar processos de descolonização e a universalização de direitos para além das fronteiras do Ocidente “civilizado”? Comparar os piores momentos das experiências socialistas com as declarações ideais de princípio do liberalismo, ignorando as práticas concretas de extermínio e coerção exercidas por este último, é um sofisma. No seu melhor estilo, equilibrando rigor e provocação filosófica, Domenico Losurdo nos convoca a enfrentar dilemas morais sem recorrer a simplificações ou ao esquecimento seletivo que estrutura o pensamento dominante do nosso tempo.
Domenico Losurdo (1941-2018), filósofo e ensaísta marxista italiano, foi diretor do Instituto de Ciências Filosóficas e Pedagógicas Pasquale Salvucci da Universidade de Urbino, lecionou história da filosofia nessa universidade, foi presidente da Hegelian International Hegel-Marx Society for Dialectical Thought, membro da Leibniz Society of Sciences e diretor da associação político-cultural Marx XXI até sua morte. Militante comunista, condenou o imperialismo estadunidense e o liberalismo passando pelo estudo da questão afro-americana, dos indígenas e do colonialismo, além de propor uma releitura singular das experiências socialistas do século XX. Dentre suas obras traduzidas no Brasil, destacam-se: Stalin: história e crítica de uma lenda infame (Da Vinci Livros), Contra-história do liberalismo (Ideias e Letras), A luta de classes (Boitempo) e Nietzsche, o rebelde aristocrata (Revan).
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