Como ler clássicos da literatura sem sofrer
Clássicos intimidam. Linguagem difícil, contexto histórico distante, narrativa lenta. Mas há estratégias que tornam essa leitura não só suportável, mas prazerosa. Guia prático para iniciantes.
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O Enterro é uma novela gráfica que pode ser classificada como uma comédia romântica existencialista. Nossa heroína, Thaiz, chama o amigo Thomaz, nosso anti-herói, para ir a um enterro. O livro começa com ela acordando-o e sugerindo uma aventura para o dia: ir ao enterro de um homem que, depois de uma certa investigação, os dois descobrem chamar-se Antônio. Tudo porque Thaiz teria se “identificado” com o defunto após vê-lo imóvel, já provavelmente sem vida, deitado numa calçada. Thomaz, apesar de não parecer tão interessado no defunto quanto na amiga, aceita a aventura (pela qual definitivamente espera algo em troca; algo carnal por assim dizer, de natureza viva...). Apoiada na tensão sexual entre os dois personagens criada pelas investidas constantes de Thomaz sobre Thaiz (sem sucesso, apesar de ele, como bom brasileiro, nunca desistir), a história tem um quê de cômico, principalmente nos seus diálogos. Percorrendo as avenidas, ruas e praças de uma São Paulo nada invisível, é possível identificar esquinas, fachadas, teatros, bares e necrópoles que são os cenários realistas da jornada de algumas horas dos personagens. Com grande influência de Robert Crumb e Moebius (apesar da falta de sexo e extraterrestres), a obra tem um caráter underground, de contracultura, cheia de perseguições, com a morte como tema central. Apesar do personagem ser realmente só um personagem com a aparência do autor, muitos perguntam “por que um autor-personagem, se ele nem é famoso?”. A resposta que pode ser dada é a de que, na cabala, o eu remete ao último nível de conhecimento: uma vez que você conhece o mundo exterior, você pode se conhecer... Ou, como diria Frida Kahlo: “Eu me desenho porque sou a coisa que eu mais conheço neste mundo”.
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