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E se Bertoleza fosse a verdadeira e legítima dona d’ O Cortiço , de Aluísio Azevedo? Com apresentação de Lilia Guerra, uma das grandes vozes da literatura contemporânea, esta edição é um convite à releitura de um dos clássicos brasileiros a partir da vida das mulheres negras Publicado em 1890, O cortiço , de Aluísio Azevedo, é um marco na literatura brasileira ao retratar toda uma coletividade até então largamente ignorada como protagonista de seus dramas: lavadeiras, pedreiros, prostitutas, cozinheiras, capoeiras, imigrantes, que se amontoam na habitação coletiva comandada pelo português João Romão e mantida às custas da exploração do trabalho da ex-escravizada Bertoleza. Marco da estética naturalista, em que a literatura se transformava num campo de análise da sociedade a partir do meio, da hereditariedade e da biologia, o romance escancara como a preocupação com os rumos da sociedade brasileira na segunda metade do século XIX se traduzia numa preocupação com o destino e o (não) lugar da população negra numa nação que mirava no embranquecimento como forma de progresso. Controverso e perturbador, O cortiço , como todo clássico, não deixa de ser capaz de produzir novas perguntas. Assim, inspirados por Lilia Guerra, somos levados a reler a obra com uma pergunta que parecia até então impensável e impossível: o que Bertoleza conquistaria se fosse livre? Neste convite à imaginação, Bertoleza pode ser a dona do barraco, do cortiço e, principalmente, da liberdade que lhe foi roubada.
ALUÍSIO DE AZEVEDO nasceu em São Luís, MA, em 1857, e morreu em Buenos Aires em 1913. Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 17 anos, instado por seu irmão, o dramaturgo Artur Azevedo. Estudou na Academia Imperial de Belas Artes e passou a colaborar com a imprensa, fazendo caricaturas e escrevendo poemas. Publicou Uma lágrima de mulher (1879), sucesso que lhe rendeu condições materiais para viver apenas da escrita. Influenciado por Eça de Queirós e Émile Zola, seria um dos pioneiros do naturalismo na ficção brasileira, com obras como O mulato (1881) e O cortiço (1890).
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