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Na famosa peça de Shakespeare, Julieta afirma que, mesmo que tivesse outro nome, uma rosa continuaria a ter o mesmo perfume. Será que é realmente assim? A obra de Yao Feng parece colocar esta questão de um modo radical. A especificidade da sua origem e condição é extraordinariamente expressiva: Yao Feng nasceu na China e desenvolveu o domínio da língua portuguesa ao ponto de ser hoje um dos principais tradutores entre estes idiomas e, caso único entre os poetas chineses, produzir poesia diretamente em português. É como se a poesia reclamasse uma língua própria para a construção do seu universo exclusivo. A poesia, como um território autónomo, como uma região administrativa especial, onde se cruzam referências históricas e culturais de um modo comparável ao que acontece em Macau, onde Yao Feng vive há mais de duas décadas. A partir do Brasil, chegar a Macau e à China através da poesia, através do olhar deste importante autor. Eis a importante viagem que este livro propõe. Nas palavras, o outro lado do mundo é aqui. Ao longo destas páginas, encontramos uma língua que é, ao mesmo tempo, cotidiana e rara, que nos catapulta para muito longe num único verso, que nos desconcerta. Será que uma rosa com outro nome teria o mesmo perfume? Sobre rosas, Yao Feng escreve: “na loja de metáforas/em saldo as rosas//mas escolhi uma pedra.” José Luís Peixoto
Yao Feng, pseudônimo de Yao Jingming, nasceu em Pequim, em 1958, e atualmente é professor catedrático na Universidade de Macau. Também é poeta, tradutor, artista e curador, tendo publicado, em chinês e em português, mais de vinte livros de poesia, crônica e ensaio dos quais se destacam Nas asas do vento cego (1990), A noite deita-me comigo (2001), As palavras cansadas da gramática (2014), Um limão no mar (2018), Não escrever também é escrever (2010), bem como a obra acadêmica História de Intercâmbio literário entre a China e Portugal (2014). Traduziu poemas de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen para chinês, e traduziu para português, de parceria com Régis Bonvicino, Um barco remenda o mar – dez poetas chineses (2007). Ganhou oito prêmios de poesia e de ensaio na China, Taiwan e Macau, e em 2006 foi agraciado com a medalha da Ordem Oficial de Santiago de Espada, atribuído pelo Estado português. Como artista, participou em várias exposições coletivas e realizou duas exposições individuais. Participou, como um dos curadores, na organização do Bienal de Arte de Macau (2021) além da organização frequente de exposições para artistas.
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