Como recomendar livros para amigos sem arruinar a amizade
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Ainda muito moço, Borges começou a percorrer a árdua topografia do mundo dantesco ao longo das viagens de bonde que o levavam ao trabalho cotidiano na sucursal Miguel Cané da biblioteca municipal de Buenos Aires. Descobriu então que os labirintos em italiano se deixavam vencer pela percepção central da mais extraordinária poesia, como se fossem o simples percurso de uma viagem lúcida e reflexiva através de um outro e mesmo universo em que se espelha, conforme a visão do grande poeta italiano, a aventura do homem na Terra e depois da morte. Em 1982, os ensaios deste livro são como relatos que refazem, numa tela fragmentária, os sugestivos pormenores simbólicos da história dessa viagem, ao mesmo tempo comum e insólita. Depois vêm “A memória de Shakespeare” e mais três contos fantásticos, em que o tranquilo domínio do estilo e as pulsantes obsessões se casam a motivos recorrentes: “Shakespeare é meu destino”, como se diz numa de suas páginas, mas além dele retornam a rosa, tantas vezes tematizada, os tigres, desta vez azuis e inalcançáveis, e o tema do duplo, que reescreve “O outro”, do Livro de areia, de outra e mais complexa perspectiva. O conjunto formaria com algumas histórias não escritas um novo livro de contos, inacabado com a morte do autor em 1986.
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