Como criar sua estante virtual de livros (e por que você deveria ter uma)
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Nesta reunião de 258 fragmentos repletos de beleza, Christina Sharpe inventa um novo modo de contar a própria vida e a de outras pessoas negras. Consciente da impossibilidade de narrar a dor da opressão em toda a sua profundidade e extensão, ou de reconstruir aquilo que se partiu, ela subverte essa limitação ao abraçar a forma fragmentária como reveladora de um todo inapreensível. Atenta aos detalhes, Sharpe investiga essas experiências a partir do que elas têm de mais comum, belo, violento e arbitrário. Como numa caixa de linhas de diferentes cores e espessuras, os textos evocam imagens de obras de arte, campanhas publicitárias, cartas, fotos e objetos de família — como o “vestido de algodão roxinho com apliques de tulipas nas cores roxa, lilás e azul” que a mãe de Sharpe fez a mão para a filha —, ou registros das recentes manifestações supremacistas em Charlottesville, tudo se une em uma única meada, um fio que conduz o leitor pelos caminhos do que precisa ser exposto. Ainda que rodeada por reflexões profundas sobre dor, indignação e angústia tão palpáveis em vidas negras, há momentos, mesmo que fugazes, de doçura e gentileza. A escolha por contar esses momentos faz de Notas ordinárias um trabalho revolucionário, em que a escrita introspectiva e observacional de Sharpe brilha, num movimento em que pessoas negras ocupadas com seus mundos particulares, com seu amor-próprio e cuidado tornam-se centrais. Do sapato bem engraxado que a avó usava em casa, mesmo enquanto cuidava de seus afazeres do dia a dia, ao amor da mãe pela simetria — “até os alfinetes tortos têm um lugar só para eles” —, a autora amplifica e realça o que é ordinário, chamando atenção para aquilo que deixamos escapar. Como bem sintetiza Saidiya Hartman, “com detalhes precisos, [Sharpe] transmite o sofrimento imposto pela ordem dominante e as brechas que se encontram no comum, e oferece um método, uma poética de recusa que transcende o estabelecido, para suportar a vida, quebrar a moldura colonial e imaginar o que poderá emergir no fim do mundo que conhecemos”.
É escritora, professora e pesquisadora das universidades de York, no Canadá, e de Joanesburgo, onde se dedica aos estudos de raça, gênero e classe. É autora de No vestígio: negritude e existência (Ubu, 2023). Notas ordinárias foi finalista do National Book Award de não ficção em 2023.
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