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Inédito no Brasil, romance de escritor decadentista francês aborda um assunto que desafiava a racionalidade científica e vinha despertando interesse entre alguns setores da sociedade francesa no final do século XIX: o satanismo J.-K. Huysmans (1848-1907) é considerado o escritor máximo do Decadentismo francês, movimento de reação ao Naturalismo e à sociedade tecnológica de massas que se anunciava no final do século XIX. No romance Nas profundezas (1891), traduzido pela primeira vez no Brasil, o escritor voltou-se para um assunto que desafiava a racionalidade científica e despertava interesse entre alguns setores da sociedade francesa: o satanismo. “Que época estranha!”, observa um dos personagens. “Justamente no momento em que o positivismo atinge seu auge, o misticismo desperta e têm início as loucuras do oculto!” O escritor Durtal, alter ego do próprio Huysmans, encontra-se em meio a pesquisas para uma biografia do satanista medieval Gilles de Rais, acusado de estuprar e degolar centenas de crianças. Em um dos capítulos dessa história que se passa em Paris, o autor descreve uma missa satânica, feita, segundo ele, de acordo com uma experiência verídica. Foi um dos motivos da notoriedade do livro, que causou escândalo e chegou a ter a venda proibida na França.
Nascido em Paris em 1848, e batizado como Charles-Marie-Georges Huysmans, o escritor era filho único de um litógrafo e miniaturista holandês e de uma professora francesa. Aos 20 anos, iniciou uma carreira de três décadas no Ministério do Interior francês, que lhe deu sustento para atuar na literatura. Ao lançar, às próprias expensas, seu primeiro livro, uma reunião de poemas, adotou, em homenagem à família do pai, o nome holandês Joris-Karl Huysmans. Seus livros seguintes usariam as abreviaturas J.K. ou J.-K. Os primeiros romances de Huysmans se filiavam ao naturalismo, e uma novela baseada em sua experiência na Guerra Franco-Prussiana foi publicada numa coletânea de escritores vinculados à escola, tendo à frente Émile Zola e Guy de Maupassant. A ruptura viria logo depois, em 1882, com a série de romances decadentistas que inclui Às avessas e Nas profundezas. A essa fase se seguiu aquela relacionada à conversão do autor ao catolicismo, incluindo a passagem por um monastério trapista e seu retiro como oblato (monge leigo) na Irmandade dos Beneditinos em Ligugé, no noroeste da França, onde ficou até 1901. Com o fim da irmandade, voltou a Paris, onde morreu seis anos depois, de um câncer na boca. Toda a obra de Huysmans pode ser lida como uma odisseia espiritual em tempos dominados pelo materialismo. Paralelamente à sua obra literária, ele foi também um influente crítico de arte, defensor do impressionismo e do simbolismo contra a arte acadêmica e conformista.
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