Distopias literárias: os livros que previram (e alertaram sobre) o futuro
De 1984 a Jogos Vorazes, a ficção distópica é o gênero que mais acerta sobre o futuro. Uma análise de como esses livros moldaram o debate político e social.
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Mestre dos diálogos enxutos e desconcertantes da frase curta e explosiva, Lourenço Mutarelli experimenta na escrita todas as facetas de sua trajetória de artista gráfico, dramaturgo e roteirista. O humor negro afiado, a linguagem presa à ação e as influências dos quadrinhos, do cinema e da poesia aparecem de forma ainda mais perturbadora em seu quinto romance, Miguel e os demônios. É fim de ano em São Paulo, época em que o calor é infernal e todas as ruas conspiram ao frenético comércio natalino. Miguel é um policial angustiado pela falta de dinheiro e dúvidas inconfessáveis. Acabou de se separar da mulher e perdeu o filho de vista por conta do caso que mantém com uma manicure. Mas outros eventos o afligem: a filha da namorada tem o estranho hábito de comer o reboco das paredes; a cunhada insinua-se para ele; o ex-marido da namorada cometeu um crime bizarro; o pai viciou-se em programas de televendas; e, ao flagrar o chefe em situação suspeita, Miguel passa a receber ameaças. Finalmente, seu parceiro de polícia o convida para fazer serviços extras que rendem bom dinheiro - ao mesmo tempo em que burlam a lei e a moral. Neste antirromance policial, o angustiado Miguel acaba sendo arrastado para uma trama que envolve pedofilia, possessão, múmias mexicanas, seitas bizarras e travestis sedutores. Sua descida aos infernos é contada a seco, em cenas fragmentadas - numa técnica narrativa que poderia ser chamada de "HQ sem imagens".
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