Os melhores romances de amor: clássicos e contemporâneos que emocionam
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No pampa argentino, na metade do século passado, argentinos e imigrantes trabalham na terra e com a terra em pleno verão ardente, sob uma aparente calma. É preciso cultivar os grãos, levar o gado para pastar, ordenhar as vacas, domar cavalos, cuidar dos porcos e da vida alheia. São hábitos diários, assim como remendar calcinhas, ouvir rádio e compartilhar o mate. Por causa disso, a protagonista de Janeiro, uma adolescente de dezesseis anos chamada Nefer, anda muito angustiada. Desde o começo da trama, ela vive o terror de: o que será que vão pensar? Nefer foi estuprada e está grávida. Assim sabemos, de uma vez, do mesmo modo que arrancamos um curativo da pele. E como lidar com uma situação dessas e, ainda por cima, em uma comunidade que não tem e/ou nega acesso à informação, à saúde e a qualquer possibilidade de afeto? Logo chegará o tempo da colheita e, com ela também a barriga prenha, por conta disso, o corpo de Nefer, quase impróprio, só espera mesmo por um milagre. Sara Gallardo, autora de Janeiro – sua primeira obra publicada e ainda nos anos 1960 na Argentina – provavelmente não sabia o quanto sua obra ganharia o mundo e se tornaria um marco na literatura nacional não só pela subversão da tradição naturalista/realista, mas também por trazer à luz alguns temas fundamentais muito antes de que estes se tornassem pautas urgentes na boca de todes. A tradução chega ao Brasil em boa hora. Em tempos de gritos de ofensa e correntes “à favor da vida” em porta de hospital, onde uma menina grávida por estupro é operada, o romance nos traz a perspectiva da vítima, que, com a voz possível, nos emociona enquanto busca, nos detalhes do cotidiano, um respiro, uma distração para a ternura. Ellen Maria Vasconcellos
Sara Gallardo nasceu em Buenos Aires em 1931. Neta do famoso naturalista e ministro argentino Ángel Gallardo, bisneta de Miguel Cané e trisneta de Bartolomé Mitre, a extensa biblioteca da casa de sua família lhe abriu as portas para a literatura. Seu primeiro romance, Janeiro, publicado em 1958, teve excelente recepção crítica e que agora chega ao Brasil pela primeira vez. Após sua publicação, vieram Pantalones azules (1963), Los galgos, los galgos (1968), Eisejuaz (1971), e La rosa en el viento (1979), o livro de contos El país del humo (1977) e obras infantis como Los dos amigos e Teo y la TV (ambas de 1974), Las siete puertas (1975) e Adelante, la isla (1982). Além disso, colaborou com as revistas Primera Plana e Confirmado, e o jornal La Nación. Sara Gallardo ficou à margem da literatura argentina durante muito tempo, ficando fora do que se chamou de boom latino-americano. No entanto, nos últimos anos, sua obra tem sido resgatada e considerada uma das mais importantes da literatura argentina.
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