Como manter a concentração durante a leitura na era das distrações
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“Não passaria a vida de uma imensa mentira? Não seria ela nada além da sombra de um sonho fugaz?”, indaga-se em certo momento o personagem enigmático que conduz a narrativa e dá nome ao livro do pintor italiano Giorgio de Chirico. Publicado originalmente em francês em 1929, “Hebdômeros” é considerado um dos textos fundadores do surrealismo. “Tudo é visto pela perspectiva do herói – um ‘metafísico’ que pensa filosoficamente sobre o sentido da vida”, observa a tradutora, Flávia Falleiros, no ensaio que acompanha a edição brasileira. “Sua voz interior forma uma espécie de duplo com a do narrador em 3ª pessoa, confundindo-se com ela. Hebdômeros torna-se, assim, uma presença compacta, como uma sombra projetada por todo o texto, semelhante àquelas que povoam as telas de De Chirico”, aponta Flávia. No posfácio desta edição, Marcus Rogério Salgado classifica “Hebdômeros” como “uma das manifestações mais radicais da arte verbal na década de 1920”. “É uma das obras de sua época que rompe com a ideia convencional e convencionada da literariedade como código estável e investe toda sua carga em uma estruturação da prosa a partir de valores analógicos (ou seja: poéticos), com a linguagem operando sob o Primado da Imagem”. A relação entre a escrita deste livro e a obra pictórica do autor estava indicada no subtítulo da edição original: O pintor e seu gênio no escritor. Para o poeta e crítico surrealista holandês Laurens Vancrevel, que apresenta a edição, o verdadeiro sujeito de “Hebdômeros” é justamente “o encontro mágico-circunstancial do pintor com o escritor”. Outro indício de que o autor “tenha querido encarar – conscientemente ou não – o desafio de recriar seu universo pictórico transformando-o num experimento linguístico”, segundo Flávia Falleiros, está no fato de De Chirico utilizar no livro a iconografia de suas telas. “As peregrinações do herói se dão por paisagens oníricas contendo vários elementos delas, o que transforma esta ficção na encarnação verbal de sua arte pictórica”. Tradução: Flávia Falleiros Apresentação: Laurens Vancrevel Posfácio: Marcus Rogério Salgado
Giorgio de Chirico (1888-1978) foi um pintor italiano. Foi um dos criadores da pintura metafísica e é considerado um dos precursores do surrealismo. Após finalizar seus estudos em belas artes na cidade de Munique, muda-se para Paris, onde torna-se amigo de Guillaume Apollinaire. Em 1925, participa da primeira exposição surrealista. Suas obras representam de maneira recorrente padrões arquitetônicos, manequins anônimos, paisagens e grandes espaços vazios. Morreu em Roma aos 90 anos.
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