Tomando como ponto de partida a ideia de que Grande Sertão: Veredas pode ser lido como uma reescrita crítica de Os Sertões, este ensaio aborda a obra-prima de Guimarães Rosa enquanto "o romance de formação do Brasil". De maneira clara e concisa, Willi Bolle mostra como a narrativa rosiana desconstrói e constrói a história do país, em diálogo com os principais ensaios de interpretação de nossa cultura: desde o livro matricial de Euclides da Cunha até os estudos fundamentais de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Antonio Candido e outros.
Por meio do cruzamento dessas múltiplas perspectivas, aspectos centrais do romance — a narração em forma de rede, o discurso diante do tribunal da História, o sistema jagunço como retrato da criminalização e o pacto com o Demônio como alegoria de um falso contrato social — emergem sob luz nova, revelando um conhecimento específico do processo histórico, contido na forma literária.
Sobre Willi
Willi Bolle nasceu em 23 de março de 1944, perto de Berlim. Estudou Letras e História na Freie Universität de Berlim, de 1964 a 1966, quando veio para o Brasil para fazer pesquisas sobre a obra de Guimarães Rosa. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo, em 1968. Doutorou-se em 1971, na Universidade de Bochum, Alemanha, com uma tese sobre a evolução da técnica narrativa nos contos de Guimarães Rosa. Lecionou Teoria Literária no Setor de Pós-Graduação da PUC-SP, de 1972 a 1978. Desde 1977 é professor de Literatura Alemã na USP, onde defendeu, em 1984, a tese de livre-docência sobre Walter Benjamin e a cultura da República de Weimar, e onde tornou-se titular em 1990. Foi professor convidado na Stanford University, no Zentrum fu¨r Literaturforschung de Berlim, na Freie Universität de Berlim, na Unicamp, UFPE (Recife) e UFPA (Belém). É também ator, formado pela Escola de Arte Dramática da USP (1983-1986). Entre 2004 e 2006 organizou leituras dramáticas de Grande Sertão: Veredas com alunos de Letras da USP e dezenas de participantes em diversos lugares do Brasil, em Paris e na Alemanha. Entre 2009 e 2014 realizou adaptações teatrais de romances de Dalcídio Jurandir com um grupo de professores e alunos da periferia de Belém. Por esse trabalho lhe foi outorgado, em 2014, pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará, o título honorífico de “Cidadão do Pará”. Aposentou-se na USP em 2009, mas continua exercendo as funções de professor titular sênior, ministrando disciplinas de pós-graduação e orientando mestrados e doutorados, além de supervisionar projetos de pós-doutorado.