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As mulheres foram, para Jean Delumeau em História do medo no Ocidente, junto aos judeus e aos muçulmanos, taxadas de perigosas e “agentes de Satã”. A partir de um ponto de vista inferiorizante e envolto em um discurso teológico que, até hoje, amedronta e põe na sombra as mulheres, em um determinismo cientificista da condição biológica feminina, além de uma avaliação reprovável de seu caráter posto como dúbio ou inválido pela justiça, a história do medo engendrou a sua consequente diabolização. À contrapelo dessa posição, a coletânea de ensaios Estudos Judaicos: Mulheres dá voz a pesquisadores, estudiosos e críticos que trazem, para o primeiro plano, escritoras, artistas e personagens que escapam das sombras e vêm habitar conosco o nosso tempo. As filhas de Eva conceberam e deram à luz a mulheres que, nos mitos e nas lendas disseminados pela tradição oral, aparecem, paradoxalmente, como seres sobrenaturais, revestidas de diabólicas artimanhas e malefícios ditos, típicos das mulheres de carne e osso. Às mulheres, acusadas de feitiçaria, atribuiu-se o dom de voar, com uma vassoura, é bem verdade, porque assim, é possível determinar o seu lugar na cozinha, nas tarefas domésticas, e excluí-las da gerência, da administração, das decisões oficiais. No entanto, esse símbolo das feiticeiras, ao sobrevoar os pesadelos, molda uma concepção ocidental do feminino que, na arte e na literatura, produziu um acervo quase infinito de personagens que, com as armas que têm que a elas foram atribuídas, sobrelevam o peso adverso do mundo. Certamente, não é só de ficção que se alimenta, nasce e cresce o medo que se tem da mulher e o medo que nelas foi incutido. Essas duas faces do medo se manifestam na violência que se exerce física, psicológica e patrimonial e que, mesmo em tempos atuais, ainda sofre os destemperos da faina que se ergue contra o feminino tanto na vida quanto na arte. Os ensaios deste livro lançam luz, de forma aberta e contundente, sobre as mulheres e sobre os discursos sobre as mulheres na atualidade.
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