Em seu livro, Leo Bahiense conta uma história detalhada da Guerra do Paraguai, através das lancetas, bisturis e teorias médicas. Na narrativa, aprofunda os antecedentes da medicina militar do Brasil, como a formação do corpo de saúde do exército, sem deixar de lado a circulação de conhecimentos e experiências médicas em guerras anteriores. Brinda o leitor com a história política brasileira e regional do século XIX, sem deixar de esmiuçar a guerra em si. O produto final é uma história médica, cirúrgica e sanitária de fôlego.
Em oposição às histórias progressistas da ciência, o autor opta pelas epistemologias do sul e narra dilemas, contradições, conflitos (com os pacientes e entre médicos) e descasos, como na história do Asilo de Inválidos da Pátria. Transita pelas distintas técnicas cirúrgicas, substâncias anestésicas (clorofórmio, sobretudo) e instrumentos usados nas amputações, tendo como pano de fundo o tétano e as gangrenas. Os tipos de hospitais mobilizados na beligerância são analisados também por suas limitações, insalubridades, conflitos de gestão, falta de medicamentos e de pessoal qualificado – muitos estudantes de medicina foram mobilizados. Epidemias agravaram a frente de batalha, especialmente a de cólera que, em 1867, vitimou muitos oficiais e militares de baixa patente.
Diante disso, Leo propôs um “nó neo-hipocrático” que combinou racismo, teorias hipocráticas e miasmas no combate à cólera. Se a contaminação pela água já circulava, a escolha dos médicos por fogueiras – uma estratégia de combate à quadra epidêmica - exemplifica bem a complexidade do período. O autor ressalta ainda a precária alimentação dos soldados e combatentes libertos para relacioná-la às mortes por cólera (papel da menor acidez estomacal) e por beribéri.
Por fim, o leitor é presenteado com uma rica reflexão sobre a de população paraguaia. Finda a última página, nota-se um livro sobre a Guerra da Tríplice Aliança que combina especialização (doutorado na Fiocruz) e erudição com uma interessante crítica de colonial.