Como ler clássicos da literatura sem sofrer
Clássicos intimidam. Linguagem difícil, contexto histórico distante, narrativa lenta. Mas há estratégias que tornam essa leitura não só suportável, mas prazerosa. Guia prático para iniciantes.
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Eu sou um homem cansado. E mais: um homem que volta cansado das férias. Porque se trata de um cansaço ancestral, antigo, longínquo, um cansaço de cerne e seiva. O mundo me cansou. Essa discussão toda, sobre todas as coisas, essa irresolvível animosidade. É isso... Não foi sempre assim. As pessoas não sentiam tamanho apreço por suas próprias opiniões, antes das redes sociais. No máximo havia uma militância de mesa de bar, as opiniões evaporavam com o álcool do chope, se esfumavam na madrugada. Mas, no novo mundo, as opiniões passaram a ser registradas. Você imortaliza o que pensa numa rede social. E, depois dessa publicação, ainda que para grupo restrito, você não é mais dono da opinião, ela é que é sua dona. Você terá de defendê-la contra os que a atacam, como a leoa defende o filhote. Então, não interessa mais o que é certo, interessa é vencer a discussão.” Trecho da crônica “Desabafo de um homem cansado” O COTIDIANO COMO GRANDE LITERATURA Este livro é uma mostra do legado que o escritor e jornalista David Coimbra deixa à literatura brasileira. É uma seleção das suas últimas crônicas publicadas no jornal Zero Hora de Porto Alegre, incluindo o período que vai do final da sua estadia de seis anos em Boston, nos Estados Unidos, até maio de 2022, quando veio a falecer em Porto Alegre. Há dois focos neste livro: um, é a descrição da luta do autor contra uma doença grave que ele aborda com a sobriedade possível, deixando espaço, no entanto, para crônicas antológicas sobre o cotidiano; o outro foco é o dia a dia durante a pandemia do coronavírus, tema que perpassa grande parte deste livro. O título é livremente inspirado no célebre Diário do ano da peste de Daniel Defoe, sobre a epidemia de peste bubônica que assolou Londres em 1665. Apesar de seguidamente se reportar a temas espinhosos como a doença e a pandemia, David não perde uma de suas características mais notáveis que é o humor. No futuro, quando falarmos dos “anos da peste”, certamente a leitura destas crônicas será uma referência certeira para a compreensão deste tempo estranho e sombrio. Pois a crônica, no caso de David Coimbra, alcança a dimensão que só os grandes cronistas do nosso país atingiram, elevando o gênero ao patamar da grande literatura. E no caso deste Crônicas dos anos da peste & outras histórias, acrescente-se um elemento fundamental a um grande livro: a emoção.
"David Coimbra nasceu em Porto Alegre, em 28 de abril de 1962, às 10h da manhã de um sábado, no Hospital Cristo Redentor. Cresceu no IAPI, na Zona Norte da cidade. Formou-se em jornalismo pela PUC-RS em 1984. Durante a faculdade, trabalhou como assessor de imprensa da Livraria e Editora Sulina, redigindo resenhas de livros, entrevistando autores, acompanhando escritores em suas visitas ao Estado. Trabalhou em mais de 10 redações no Sul do Brasil, entre elas: Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina, Jornal da Manhã (Criciúma), RCE TV (SC), Rádio Eldorado (SC), Correio do Povo, Rádio Guaíba e Jornal NH. É editor executivo de esportes e colunista do jornal Zero Hora, além de comentarista da TVCOM e integrante do programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida. É autor dos romances Canibais – paixão e morte na Rua do Arvoredo (2004) e Jô na estrada (2010), dos livros de ensaios históricos Jogo de damas (2007) e Uma história do mundo (2012), das coletâneas de crônicas Mulheres! (2005) e Um trem para a Suíça (2011), entre outros. Confira aqui todos os livros de David Coimbra publicados pela L&PM. Ganhou 10 Prêmios ARI (prêmio de reportagem concedido pela Associação Riograndense de Imprensa), um Prêmio Esso Regional Sul, um Prêmio Açorianos de Literatura, um Prêmio Habitasul de Literatura, um Prêmio Direitos Humanos de Reportagem, um Prêmio Erico Verissimo de Literatura, concedido pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre."
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