Como ler clássicos da literatura sem sofrer
Clássicos intimidam. Linguagem difícil, contexto histórico distante, narrativa lenta. Mas há estratégias que tornam essa leitura não só suportável, mas prazerosa. Guia prático para iniciantes.
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“No extremo oposto ao novo filme de Ruy Guerra, Aos Pedaços (In Pieces) – que mostra de modo alegórico o protagonista em crise paranoica com mulheres autônomas e livres, num impasse diante da emancipação feminina crescente por efeito das políticas feministas –, o livro de Álvaro Miranda, Cartas do amor sem juízo, cria um lugar ambíguo porque instalado no reino flutuante das palavras, e insiste numa atmosfera que move o signatário a escrever cartas a partir de memórias sensuais, sexuais e sentimentais que envolvem a interação. O signatário das cartas tem plena consciência da interação planejada, porque faz parte mesmo da estrutura de uma carta atingir um destinatário, ainda que errático e silencioso, em sua contrapartida de uma correspondência almejada. Na multiplicidade imaginária do rosto das interlocutoras, o destinatário é sempre uma parceira hetero-cis. No tecer das missivas, a escrita das cartas vai consolidando um topos utópico para o qual se dirigem os gestos e as recordações. Todo o movimento da argumentação baseia-se no pressuposto de que os amores serão sempre amáveis. E com essa disposição de ânimo o signatário discorre sobre suas experiências e espera ter configurado a autenticidade de um testemunho. Cabe ao leitor ponderar sobre os meandros em que se expõe o ser amoroso das cartas. Constatar e talvez trazer para si o que de melhor as imagens comunicam.” [Luiz Fernando Medeiros] Nestas Cartas do amor sem juízo, Álvaro Miranda embaralha o tempo, a gramática dos afetos e a lógica dos vínculos numa torrente de cartas que se confundem com sonhos, confissões, ensaios, crônicas e poesia. São 101 correspondências numeradas fora de ordem – como se o tempo do amor, esse tempo íntimo e desobediente, não coubesse na linha reta dos calendários nem nos manuais de comportamento. A partir do apagamento dos próprios sonhos e da ausência de uma narrativa clara, o autor inicia, sem perceber, um movimento de escrita que beira a autoanálise, conduzido pela paixão pela palavra e por uma inquietação constante: o que move o amor? O que o sustenta? O que o ameaça? Nessas cartas, escritas como quem se entrega a uma correnteza, o amor é vivido com espanto, liberdade, ironia e vulnerabilidade – muitas vezes desafiando convenções, contratos e certezas morais. Ora ridículas, ora líricas, ora provocativas, as cartas transitam entre o íntimo e o político, entre o erotismo e a ternura, entre o devaneio e o juízo (ou sua falta). A fidelidade é questionada, o ciúme esmiuçado, o compromisso desromantizado. O amor é visto como arte – e, como tal, imprevisível, incontrolável, feito de linguagem, silêncios, abismos, reinvenções. A correspondência, no fundo, é mais que forma: é método de escuta e exposição, de partilha e de entrega. Um modo de tentar, mesmo sem chegar a saber, o que talvez ninguém saiba – mas todo mundo sente. Este é um livro para quem já amou, ama ou ainda quer se perder um pouco mais nessa vertigem sem mapa chamada amor.
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