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Neste romance de formação, definido por Alan Pauls como "a meio caminho entre a autobiografia delirante e a etnografia íntima", Aurora Venturini recria o território de sua infância na La Plata dos anos 1940 e, numa mescla desconcertante entre o trágico e o cômico, constrói o retrato de mulheres abandonadas que, para além da pobreza, são obrigadas a lidar com deficiências físicas, mentais e imaginárias. Enquanto frequenta "institutos para limitados", em casa, a jovem Yuna cresce mergulhada no cotidiano precário de sua mãe "professorinha mixuruca e olhe lá", no de suas primas Petra e Carina, também portadoras de deficiências, e de seus tios e tias, todos às voltas com os cuidados da irmã Betina, infantilizada para sempre em uma cadeira de rodas. Quando conhece o professor José Camaleón, entusiasta do seu talento para a pintura, Yuna vislumbra a possibilidade de escapar do que o destino parece ter lhe reservado. A cada palavra descoberta no dicionário e a cada nova tela pintada, ela acredita superar seu mundo de imperfeições, bem como o lar da "família estranha" onde cresceu. Esse viver áspero, repleto de histórias de estupro, aborto, prostituição e assassinatos, assombra as figuras observadas por Yuna e torna-se tema de sua arte, que garante melhorias materiais para a família e a esperança de se redimir da estranheza que as singulariza. Mas, se Yuna responde à opressão do mundo com a pintura, Petra se vale de toda sorte de ardil para sobreviver e vingar os seus. Com uma escrita definida por Mariana Enriquez em prefácio ao romance como radical, excêntrica, deformada e lúdica, Aurora Venturini estreou oficialmente na literatura latino-americana com As primas aos 85 anos, após uma vida repleta de momentos tão insólitos quanto curiosos — adjetivos que, aliás, também se aplicam à sua escrita. Com a voz inconfundível de Yuna, bem como sua mirada a um tempo cândida e brutal, perspicaz e ensimesmada, Venturini arrebatou os leitores argentinos para em seguida conquistar o mundo, lembrando-nos de que não há convenção literária que não mereça ser posta em xeque.
Nasceu em La Plata, Argentina, em 1921. Foi escritora, tradutora, poeta e professora. Exilou-se em Paris após o golpe de Estado de 1955, onde conheceu figuras como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus. Escreveu mais de quarenta livros, entre eles As primas.
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