Como ler mais livros: 10 hábitos dos leitores que devoram 50 livros por ano
Ler 50 livros por ano parece impossível? Não para quem adotou os hábitos certos. Descubra as estratégias usadas por leitores vorazes para encaixar mais leitura no dia a dia.
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Existe literatura feminina? Essa pergunta nos é feita sempre a nós, poetas-mulheres, e de certa forma ela nos persegue. Ainda que gênero seja uma invenção, a divisão sexual do trabalho e os papeis sociais impostos às pessoas que se autoidentificam como mulheres* é muito real e esses fatores influenciam nossa escrita, óbvio, porque influencia a nossa vida. Assim sendo, é claro que existe uma literatura feminina, por mais raiva que eu sinta em aceitar. Só que esse aspecto, que por séculos foi limitação, vira elemento emancipador, a partir do momento em que nos acotovelamos para dar a nossa versão dos fatos: se é nesse mundo, e não em outro, que vivemos, e se as coisas são assim, e se há coisas que só um corpo de mulher sabe, então é disso, meu amor, desse corpo nesse mundo, de que falaremos. Nesse sentido, a poesia de Maria Isabel Iorio vem como um coquetel molotov atirado por alguém que está sozinho, mas sozinho está no meio da multidão, dentro desse protesto infinito que é ser mulher, e que é ser mulher brasileira desde 2013. “Aos outros só atiro meu corpo”, que começa com a palavra chupar e termina com a palavra falar, é um livro sobre a solidão que historicamente nos persegue em todas as nossas facetas – poetas, mulheres, feministas, esquerdistas. Como diz a própria autora, existem ofícios, hábitos e acontecimentos que só podem ser feitos quando estamos sozinhos – “cortar as unhas depois do banho”, “lembrar escovar os dentes de trás”. Ser preso político. Morrer. Morrer trabalhando. Morrer de desgosto, desistir. Morrer não em outro, mas neste mundo – o de Brumadinho, de Suzano, o de Damares, onde podemos contar com tão pouco, onde nem mesmo a dor é companhia certa, porque “parece que a dor também se atrasa”. Mas esse é o mesmo mundo onde nossos dedos tremem quando adentram o corpo que amamos, onde “qualquer boca é metade de um beijo”. O livro de Maria Isabel Iorio não vai te afagar, talvez porque seja 2019, talvez porque ela confie que nós, seus leitores, precisamos menos de afago e mais de sustos. De menos aviso de gatilho e de mais coragem. Eu não sei o que Bel queria com esse livro, mas sei que ele está situado, pensando em nós e existindo entre nós, no Brasil 2019. É esse seu maior feito. - Adelaide Ivánova
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