Como recomendar livros para amigos sem arruinar a amizade
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Neste ensaio autobiográfico que já nasceu clássico, a atriz e escritora argentina Camila Sosa Villada resgata memórias primordiais de sua infância em Córdoba para refletir sobre literatura, escrita, família, pobreza e a relação entre elas. Num exercício de autoinvestigação franco e poético, em que sensibilidade e consciência social se combinam, a escritora reconhece na criação literária um gesto de resistência e autopreservação. “Eu digo: primeiro a escrita, depois a tristeza. E e´ uma vito´ria sobre esse desi´gnio da minha fami´lia que nunca aceitou sua pobreza: primeiro eu soube escrever e depois aprendi a ficar triste.” Ao retraçar as origens da própria literatura, Sosa Villada descobre nela a presença incontornável de seus pais, que lhe presentearam com os saberes das letras, muito antes de seus caminhos se afastarem: “Meu pai me ensinou a escrever, e minha ma~e, a ler. Eles me levaram para a borda de uma floresta e me deixaram ali sozinha, esperando que eu entrasse e me perdesse para sempre.” Pródiga em frases antológicas e definições inesquecíveis sobre literatura (entre elas, “um animal muito difícil de ser caçado”, e “a travesti é a irmã da escrita nessa viagem de renúncia”), a escritora também dialoga com todos aqueles para quem a leitura é um ato essencial, ainda que terrível; aqueles que, como ela, conhecem o “poder do prazer da solidão” proporcionado pelos livros, seu primeiro refúgio contra a pobreza de sua infância, a tristeza da mãe, a violência do pai. Guiada pelas leituras de Marguerite Duras, Wislawa Szymborska e Carson McCullers, cujas palavras reverberaram e permanecem nela para sempre, Sosa Villada encontra as próprias, “tão alcoólatras” quanto seu pai, “tão desamparadas e insaciáveis” quanto sua mãe, fazendo da escrita um ato necessário e urgente, inato e fatal, na medida que pode dar vazão às histórias que anseiam por ser contadas.
Nasceu em 1982 na cidade de La Falda, em Córdoba, Argentina. Cursou comunicação social e licenciatura em teatro na Universidade Nacional de Córdoba. Em 2009, como atriz, estreou seu primeiro espetáculo, Carnes tolendas: retrato escénico de un travesti [Carnaval: retrato cênico de uma travesti]. Atuou em diversas produções audiovisuais no cinema e na televisão e é autora do livro de poesia La novia de Sandro [A namorada de Sandro, 2015], dos contos Sou uma tola por te querer (Planeta, 2022) e do romance Parque das irmãs magníficas (Planeta, 2021), que recebeu o prêmio Sor Juana Inés de la Cruz pela Feira Internacional do Livro de Guadalajara.
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