Em 2017, os conselhos que Albert Einstein escreveu de próprio punho para oferecer como gorjeta a um camareiro do Hotel Imperial de Tóquio foram vendidos por mais de 1,5 milhão de dólares, durante um leilão em Jerusalém. “Uma vida calma e modesta traz mais felicidade que a busca de sucesso e a inquietação constante”, dizia um dos bilhetes escritos em alemão. “Querer é poder”, ensinava a segunda mensagem.
Sou afeita a aconselhar os outros, confesso; é quase um esporte. Basta um amigo abrir a boca e fazer uma queixa, que elaboro em segundos o plano perfeito. Soluções para espinhela caída, nome no Serasa e amores que não deram certo? Temos. Nem sempre funcionam a contento, isso é verdade. Conselho não se pede e é preciso treino para acertar o alvo. Também não se vende. Mas vejam o caso de Albert Einstein.
Os papéis timbrados do Hotel Imperial de Tóquio com a Teoria da Felicidade atravessaram quase um século e renderam uma fortuna aos netos daquele homem. Aconselhar os outros pede coragem e, nesse sentido, Einstein foi admirável ao apostar na síntese. Não que eu concorde. Afinal, é possível uma vida feliz sem desejos? E, tendo desejos, como manter a quietude? Talvez o problema esteja nos conceitos.
Se olharmos direito, há uma contradição nos bilhetes que guardam os conselhos de Einstein. Um deles estimula a acomodação, o outro exorta ao movimento. É como se ele tivesse dito ao camareiro lá em Tóquio: “Se desejar algo, lute. Se pode passar sem, mantenha-se quieto”. No fundo, bem lá no fundo, tudo é relatividade. Nesse ponto, meu pensamento inquieto conecta-se com Rainer Maria Rilke.
Em Cartas a um Jovem Poeta, ele orienta Franz Xaver Kappus, que vacila entre a carreira militar e a poesia, por não saber se os seus versos são realmente bons. É quase um teste, e tão valioso quanto a Teoria da Felicidade: “confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?”. Rilke se exime, desse modo generoso, a um só tempo, do peso da crítica e do conselho. Examine a si mesmo, eis a senha. O resto é silêncio.
Se os livros didáticos contam a história dos vencedores, desencontros costumam render bons romances. O que dizer dos encontros? Por mais descartáveis, rápidos ou dolorosos, deixam sempre algum legado. Mesmo quando aconselho, por vício quase, à moça desconhecida ao meu lado no banco, desesperada com um pagamento atrasado, que é sempre possível habilitar o aplicativo.