Como criar um ambiente de leitura em casa que convide (em vez de afastar)
Ambiente importa tanto quanto disciplina para criar o hábito de leitura. Pequenas mudanças no espaço físico aumentam drasticamente o tempo que você passa com livros nas mãos.
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Marcia tem dezesseis anos e é infeliz. Um dia, voltando da escola imersa nos torpores vespertinos do bairro de Flores, em Buenos Aires, ela é afrontada por uma pergunta-convite brusca: “Quer foder?”. Pega de surpresa, Marcia até tenta resistir, mas se vê rapidamente enredada por duas garotas punks, Lenin e Mao, que a seduzem com seu jeito transgressor e seu discurso sobre o amor. As duas, porém, não têm muito tempo para discussões filosóficas: elas precisam de provas. Com um final apoteótico e de alta voltagem sexual, esta novelita pode ser lida como uma metáfora do primeiro encontro com a literatura de César Aira. Em uma lufada de poucas páginas, ela arranca todas as certezas de quem a lê. Mas para aqueles que, como Marcia, têm coragem de se entregar, ela oferece em troca o êxtase do arrebatamento e o imenso prazer da liberdade.
César Aira nasceu em 1949 em Coronel Pringles, Argentina, e vive em Buenos Aires desde 1967. Vencedor do prêmio Formentor de 2021 e considerado o maior escritor vivo de seu país, além de um expoente mundial da literatura de vanguarda, Aira é conhecido pela profusão de sua obra — que já soma quase 120 livros publicados — e pela liberdade extrema de seu projeto criativo, que obedece a um procedimento simples, batizado por ele de fuga para a frente: uma vez escrita, uma frase não deve ser alterada. Ainda que ela mude radicalmente os rumos da história que vem sendo contada, não há retorno. Amante fervoroso da literatura — em especial da brasileira, que conhece a fundo —, Aira foi fortemente influenciado em sua trajetória pelo movimento surrealista e pelo pensamento de Marcel Duchamp. Sua obra é marcada pela procura incessante de novos caminhos para o fazer literário. Mas além da fuga para a frente, essa busca é regida por outro princípio igualmente importante: o do prazer. A cada página dos romances amalucados e notoriamente curtos — as chamadas novelitas — é evidente que Aira se diverte enquanto cria enredos alucinados, que operam no ponto de convergência entre o hiper-realismo e o surrealismo, misturando referências da chamada alta literatura com elementos da cultura pop numa anarquia festiva — que parece antecipar o humor tresloucado que a internet popularizou —, capaz de resgatar em muitos leitores o prazer pela leitura; afinal, é impossível ler alguns de seus livros sem rir. Além de divertida, a experiência de ler Aira é também radicalmente transgressora: no breve intervalo de uma centena de páginas, seus livros podem ter diversos estilos literários, finais abruptos, pontas soltas e toda sorte de desobediência às normas e convenções. Ao tirar até os mais experimentados leitores de seu elemento natural e desautomatizar certos hábitos que todos temos ao ler (quem de nós nunca se parabenizou por encontrar um furo na cronologia de uma história, ou antecipar o fim de um romance policial?), Aira explode todas as convenções e nos faz experimentar tudo em todo lugar ao mesmo tempo. Dos contos de fadas ao pulp fiction, passando pela Grécia Antiga e indo parar no bairro de Flores, no coração da Buenos Aires do século 21, ou então na mítica Coronel Pringles da juventude do escritor, a jornada é cheia de aventuras e o ritmo, intenso. Com o vetor sempre apontando para o que ainda está por vir, Aira dá um passo importante em direção ao desconhecido e mostra que o futuro da arte e da literatura pode ser bem-humorado.
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