Em A PROMESSA, que leva o subtítulo Réquiem para um romance policial, o autor, já conhecido por seus romances e roteiros policiais, decide jogar com as convenções do gênero. Dürrenmatt coloca a si mesmo como personagem — um escritor que ouve de um ex-chefe de polícia o caso que arruinou o homem mais genial que ele conheceu. Matthäi, um detetive já próximo da aposentadoria, jura à família de uma vítima que encontrará o culpado por trás do crime brutal. Ao levar sua promessa às últimas consequências, Matthäi é obrigado a encarar o fato de que a vida real nem sempre cabe dentro da lógica das histórias de mistério. A saga de Matthäi se converte em uma reflexão sobre justiça, culpa, virtude e acaso. Além disso, ao misturar ficção e realidade, o autor coloca a discussão sobre literatura dentro da própria obra. Em A PANE: Uma história ainda possível, o caixeiro-viajante Alfredo Traps tem de pernoitar em um vilarejo após seu carro sofrer uma pane na estrada. Ele se une a um grupo para um jantar. Os ilustres senhores que o convidaram têm o passatempo de encenar julgamentos e sentenças. Na posição de réu, Traps abrirá sua vida e seus segredos a estes desconhecidos de uma maneira irreversível. Nas duas obras, o autor cria pérolas narrativas: leituras envolventes que incluem mergulhos fundos na moralidade humana e reflexões sobre o lugar da literatura no mundo contemporâneo. Por sua versatilidade e suas ideias provocadoras e críticas à sociedade europeia, Dürrenmatt marcou seu nome entre os principais autores de língua alemã da literatura moderna.
Sobre Friedrich
FRIEDRICH DÜRRENMATT nasceu na pequena cidade de Konolfingen, na Suíça, em 1921, filho de um pastor protestante. Dürrenmatt estudou literatura, filosofia e teologia, mas não concluiu a universidade. Influenciado pelo teatro épico de Bertolt Brecht, escreveu sua primeira peça, Es steht geschrieben (“Está escrito”), aos 25 anos. A partir da década de 1950, com obras como O juiz e seu algoz (1950), A suspeita (1951, no prelo pela Estação Liberdade) e A visita da velha senhora (1956), se estabeleceu como um dos grandes autores de seu país, com textos encenados, adaptados e traduzidos mundo afora. Dürrenmatt escreveu ensaios, peças, sátiras e romances, sempre marcados por reflexões sobre a justiça, a liberdade, a culpa, o acaso, a virtude e a literatura em si, em uma produção que explora a tragédia humana de forma irônica, por vezes grotesca, escancarando as ambiguidades e a decadência moral da Europa no pós-Segunda Guerra