[...] As fábricas de produzir “o ouro branco” trouxeram consigo a escravidão, o latifúndio e a concentração da riqueza. Carlos Eduardo Nicolette conduz seu estudo para compreender como se deu a montagem do complexo açucareiro em Campinas. [...] Sua investigação permitiu, por meio do cruzamento de informações, visualizar a trajetória e a organização das unidades açucareiras, número de trabalhadores, a produção, quantidades e tipos de mercadorias produzidas e os respectivos proprietários e suas famílias. Dessa forma, o autor identificou quem foram os “sujeitos” que montaram os engenhos e os partidos de cana-de-açúcar (apenas lavradores de cana sem engenho, partidistas) na última década do século XVIII até 1818, na vila de São Carlos. Nicolette faz avançar o conhecimento sobre a fase de implantação da economia açucareira em Campinas e aponta os seus primeiros passos na direção da acumulação de cabedais e da consolidação de uma estrutura fundiária marcada pela concentração da riqueza.
— Do Prefácio, de Maria Alice Rosa Ribeiro
À luz do ouro branco: lavoura canavieira paulista e a montagem do parque açucareiro de Campinas (c. 1790- 1818), de Carlos Eduardo Nicolette, vencedora do prêmio de melhor dissertação em História Econômica da ABPHE, constitui uma pesquisa incontornável para reconstituir a formação do atual complexo sucroalcooleiro paulista ainda em nosso período colonial. Se a produção açucareira no Brasil esteve sempre presente, desde as nossas origens, isso não quer dizer que a mesma fosse simplesmente “dada” ou “atemporal”.
Sua historicidade, com seus ritmos e regionalizações próprias, ainda não foram completamente reconstituídas e o livro de Carlos Nicolette cobre essa lacuna de maneira exemplar. Campinas foi uma das regiões açucareiras mais dinâmicas no Brasil em meados do século XIX, colocando a província
de São Paulo como uma das mais importantes do país e, tendo contribuído no "arranque" da cafeicultura a partir de então.
Nicolette reconstrói a montagem desse complexo açucareiro ao final do século XVIII e nas primeiras décadas do XIX, conjugando fontes demográficas e fiscais com rara maestria e metodologia digna de nota. Sua dissertação, doravante livro, mostra o crescimento consistente da lavoura e manufatura canavieira e sua relação com a expansão do mercado mundial, incluindo aí a
oferta também crescente de braços escravos, naquilo que Caio Prado já havia denominado como “o renascimento agrícola”.
Pesquisa simples e genial como são os bons livros!
— Luiz Fernando Saraiva, Instituto de História, UFF