Como ler clássicos da literatura sem sofrer
Clássicos intimidam. Linguagem difícil, contexto histórico distante, narrativa lenta. Mas há estratégias que tornam essa leitura não só suportável, mas prazerosa. Guia prático para iniciantes.
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Em 13 de dezembro de 1968, a decretação do AI-5 pela ditadura militar mergulhou o Brasil numa longa noite de repressão, torturas e assassinatos políticos. Entre os intelectuais de esquerda visados pela “linha dura” do regime estava Roberto Schwarz, então professor de teoria literária na USP e assistente de Antonio Candido. Schwarz, sociólogo de formação, foi acusado de promover a subversão marxista na universidade, e teve de se esconder na casa de amigos para escapar às garras dos “milicos”. Meses mais tarde, o crítico e professor paulista conseguiria viajar para o exílio na França. No entanto, para passar o tempo no esconderijo improvisado, Schwarz se pôs a explorar a boa biblioteca de seus amigos, e releu, entre outros, O príncipe, de Maquiavel, e O alienista, de Machado de Assis. O extenso conto do mestre de Memórias póstumas de Brás Cubas lhe forneceu a inspiração e a matéria-prima para A lata de lixo da história, chanchada em treze cenas que transfigura o clássico machadiano numa sátira impiedosa da sociedade brasileira durante o regime militar. Ironizando até mesmo a necessidade de transportar a crítica política para o Brasil colonial - e a cidade de Itaguahy para uma improvável Suíça - naquele clima geral de censura e delação, Schwarz reaproveita o enredo e os personagens de O alienista com humor, agudeza e mordacidade. O germe das “ideias fora de lugar”, um dos principais temas da obra crítica de Schwarz, transparece nas ações desmioladas do alienista Simão Bacamarte, que implanta em Itaguahy um regime totalitário, inteiramente baseado numa “ciência” importada, para salvaguardar a saúde mental dos cidadãos. Com os desmandos de Bacamarte, de início apoiado pelos “notáveis” do lugar, a Casa Verde deixa de ser um hospital de alienados para se tornar uma masmorra semelhante às câmaras de tortura da repressão, e aos poucos aprisiona toda a cidade.
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