Como criar uma rotina de leitura noturna que substitui o celular
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Conhecida no Rio de Janeiro como a linha do inferno, a 474 é uma rota de ônibus que atravessa a cidade de norte a sul, 7 dias por semana, 24 horas por dia. De segunda a sexta-feira a linha segue seu objetivo: alimentar a cidade maravilhosa com mão de obra barata do Jacarezinho, um dos bairros mais violentos e miseráveis da cidade. É durante os finais de semana ensolarados que a linha emerge como um personagem subversivo, pois é apropriada como uma rota de acesso à praia pelos moradores das áreas marginalizadas. O livro de Gabriel Weber, 474 Jacaré/Copacabana, é um ensaio político-arquitetônico sobre a cidade como agente de exclusão. Por meio de discursos discriminatórios, a rota do 474 tornou-se uma ferida estrutural no sistema de espaços urbanos da cidade, com códigos específicos. Mais do que um estudo de arquitetura, presenciamos uma travessia política pelo corpo da cidade – uma viagem de ônibus que se transforma em radiografia crua do apartheid social carioca. 474 Jacaré/Copacabana é um livro sobre ônibus, mas também sobre cercas invisíveis, sobre o corpo periférico contido nas fronteiras, sobre a areia da praia como território em disputa. Um livro que desafia a ilusão de cidade democrática e revela, com brutal precisão, o projeto de uma linha: conter, vigiar e punir. Se a cidade é o espelho das suas rotas, o 474 reflete um Brasil que insiste em fingir que o mar é para todos – mas só até a próxima parada. Gabriel não deixa escapar nada ao fazer uma acurada análise urbanístico-sociológica sobre o 474. O ônibus que não é só veículo e trajeto, mas também protagonista da pesquisa, é tratado pelo autor nem como herói, nem como vilão, mas um anti-herói. Tampouco romantiza a linha: trata a seco os problemas: a precarização das condições de trabalho dos motoristas da linha, os frequentes assaltos dentro do veículos e todo o tipo de cenas de violências no interior do veículo. Mas o trabalho do arquiteto-urbanista tem um norte: a tensão provocada pelo ônibus 474 expõe a fragilidade democrática e da constituição da cidadania que, além de produzir desigualdade, marginaliza e impede que seus moradores pobres exerçam o direito de circular livremente pelas cidades. Há uma montanha real e metafórica que divide a cidade. O trabalho de Weber perfura a montanha, escancara a desigualdade e mostra as tensões de classe provocadas pela passagem do 474. – Tiago Coelho, reporter da revista Piauí e roteirista
Gabriel Weber (Rio de Janeiro, 1997) é arquiteto formado pela FAUP (Porto), com passagem pela UFRJ, interrompida após o incêndio de 2016. Vencedor do Prêmio Viana de Lima (2023), é autor do livro Manual de prácticas del autobús - 474 Jacaré Copacabana (NoLibros, 2024), finalista do Archiprix. Desde 2024, realiza doutorado sobre a arquitetura das mesquitas agudás no Golfo do Benim, com bolsa da FCT, projeto que lhe rendeu o prêmio Fernando Távora. Atuou no ateliê MeroOficina e com Adalberto Dias, além de colaborar em projetos editoriais e expositivos em Portugal.
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