Sobre LíVia
Sou uma mulher negra e nordestina, nascida em Salvador (BA), a cidade mais
negra fora da África. E mesmo aqui, ainda menina, antes que eu pudesse descobrir
minha negritude, “gritaram-me negra!”, exatamente como no poema de mesmo
nome de Victoria Santa Cruz. Mas não retrocedi! Negra, sim! Negra, sou! E ainda
mais negra me tornei ao longo do tempo, num processo contínuo de libertação a
partir da construção da minha própria identidade; processo que, no entanto, não
é livre de dor. Já adolescente, lembro-me como se fosse hoje quando o meu pai
me chamou no canto da sala preocupado com o meu futuro profissional. Eu, a sua
“doce rebelde”, que sempre tinha resposta pronta para tudo, retruquei: quero ser
jornalista! Ainda posso ver seu olhar e sentir o tom da sua voz: “Você já viu alguma
jornalista negra na televisão? Por que não segue a carreira de jurista? Você sempre
gostou tanto de debater...”. Depois sorriu, lembrando das reuniões de família
em que eu refutava cada um dos argumentos apresentados por minha mãe.
Seguindo a valiosa orí-entação ancestral que recebi, ingressei na Faculdade
de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na qual, além de me
graduar, cursei o mestrado em Direito Público. Ainda como acadêmica,
tive a chance de estagiar no Ministério Público quando decidi que queria
ser promotora de justiça, cargo que ocupo desde 2004. Doutoranda em
Ciências Jurídico-Políticas pela Faculdade de Direito da Universidade de
Lisboa (FDUL), tenho me dedicado a compartilhar minhas insurgências
epistemológicas e vivenciais, especialmente com outras meninas e mulheres
negras, para que descubram a potência transformadora de suas vozes e seus
corpos. Recentemente reconhecida como uma das 100 Pessoas Mais Influentes
de Descendência Africana do Mundo, na Edição Lei & Justiça, hoje, sinto-me
realizando justamente a missão que me foi entregue pela ancestralidade.