Sobre Albertine
Albertine Sarrazin nasceu em 1937, em Argel, capital da então colônia francesa da Argélia. Deixada por sua mãe, uma adolescente espanhola, aos cuidados do órgão de acolhimento do Estado, foi adotada por um casal de idosos e recebeu uma educação rigorosa. Aos dez anos, foi violentada por um tio paterno, e após a família mudar-se para Aix-en-Provence, no sul da França, começou a revelar um comportamento rebelde. Cinco anos depois, em 1952, foi posta num colégio interno, e em seguida seu pais obtiveram autorização judicial para interná-la em um reformatório em Marselha. No ano seguinte fugiu da instituição rumo a Paris. Lá reencontrou uma ex-colega do reformatório e juntas viveram uma iniciação na marginalidade, roubando carros, furtando lojas e se prostituindo para sobreviver. Ao tentar assaltar um supermercado, Albertine feriu uma vendedora com um tiro. Procuradas pela polícia, as duas amigas foram presas em agosto de 1953, quando Albertine tinha dezesseis anos. Enviada à penitenciária de Fresnes, foi condenada a sete anos de prisão. Por correspondência, passou no exame de formatura do ensino médio, e foi transferida para uma prisão-escola em Doullens, em 1956, ano em que seus pais anularam a sua adoção. Ali se inscreveu em um curso de estudos literários, mas antes das aulas começarem, em abril de 1957, Albertine escapou da prisão, pulando um muro de dez metros de altura e fraturando um osso do calcanhar, o astrágalo. Na fuga conheceu Julien Sarrazin, um ex-presidiário que continuara a levar uma vida à margem da lei. Ele escondeu Albertine na casa da mãe e os dois se apaixonaram. Em setembro de 1958, em Abbeville, os dois foram novamente presos, Julien por roubo, do qual foi inocentado, e Albertine por uso de documentos falsos. Em fevereiro de 1959, Julien e Albertine casaram-se em Paris, ela escoltada por dois policiais. Em 1964, após uma série de furtos, perseguições da polícia e prisões, os dois se instalaram em uma velha casa de aldeia em Saint-Andréfabula-de-Majencoules. Foi então que Albertine pode se dedicar aos escritos que havia iniciado na juventude, durante suas sucessivas detenções, como La Cavale [A fuga], e Les soleils noirs [Os sóis negros], a primeira versão de O astrágalo. O manuscrito de La Cavale foi lido por Simone de Beauvoir, que o recomendou à Gallimard, mas a editora Pauvert arrematou os dois romances, La Cavale e O astrágalo, e os publicou simultaneamente em 1965. O sucesso de O astrágalo foi ainda maior que o de La Cavale, e o livro recebeu o Prêmio dos Quatro Júris em 1966 e a autora passou a trabalhar na sua adaptação para o cinema. Antes da estreia do filme, porém, e após a publicação de seu terceiro romance, La Traversière, Albertine, que tinha saúde frágil, acabou falecendo durante uma cirurgia, em 10 de julho de 1967, pouco antes de completar trinta anos.